
Mais do que agradecer a quem fica, observar o que permanece. Ser um acúmulo de mortes e, ainda assim, enxergar em buraco apenas primeiro passo para fazer nova flor: é isso o que diferencia quem busca o ‘dê pois’ e quem se empaca.
Ressignificar a história, não as pessoas. Lembrar que uma vida bem vivida é uma vida que sabe que liberdade é sobre legado. E legado é sobre caráter. Caráter não é sobre a cicatriz, é sobre o que faz depois dela.
Para quem vive de renascimentos, por saber que a dor faz parte de tudo (o que não faz parte é se acomodar com ela), eis aqui quatro poemas para se ler e reencontrar.
1. QUANDO NÃO FOR ESPERA
(Recitado em vídeo acima)
Tudo o que ela precisa
É desaprender a morrer
Que de tanta morte-viva
Acostumou-se a se refazer.
Por onde a pulsação anda
Ela arrasta todo o caixão
E onde aparece uma sombra
Prepara o buraco no chão.
Pega o corpo defunto molhado
E levanta inteiro outra vez
Sem crer em dia ensolarado
Que poderia enxugar os clichês.
Faz flor na terra esburacada
Mas não acredita em quem se diz vivo
Arranca das costas facada
E não confia nos curativos.
Tudo o que ela precisa
Ah!
É desaprender.
Que de tanto ser natural, morte
Nem acredita mais em benzer.
Não fecha os olhos em cochilos longos
Nem mesmo permite que dure o repouso.
Procura provas de que o pernilongo
Fará outro homicídio culposo.
Tão amada quando quase-sem-alma.
Tão adorada quando em autópsia.
Porque para os quase-sem-vida
Tantos batem palma.
E quando ela quase-vai,
Sempre vem a biópsia.
Tudo o que ela precisa, oras!
É uma história para não se enterrar
Um livro, uma água fresca, uma semente
Que vai florear.
Uma paciência de Jó
Para entender quem muito voltou
Dos mortos, terra na garganta
De onde ninguém mais pisou.
Um filete de luz quando o escuro
Vier de mansinho pós-sol
Um sentimento todo seguro
De nem morrer, nem viver
Em prol.
Apenas coisa bonita, que não fecha
A entrada do ar que respira.
Tudo o que ela precisa
É aprender mais o que admira.
Porque
Quando o tempo não for mais o tempo
E o doer não for a-versão
Quando tanto não der n’outro pranto
Quando o sim for menos que o não
Ela chora, ardendo, gritando
Faz calar toda, tanta, ilusão
E o peito, cremado, berrando
Diz, enfim, que chorou de emoção
Sabe, aqui, que tudo faz motivo
Quando a hora não é de moer
E o bordado, bordado agressivo
Sabe, enfim, n’outra mão se caber
E o sentido que ninguém achava
Escondido, no que era pra’si
Faz resposta, assim, intuitivo
Como se choro pudesse sorrir
Entre adeus, chegadas e meios
Prefere ter tudo onde possa ficar
Porque voltar, já não suficiente
Faz a dor calejada sarar
Mas fica inda batendo tão roxo
E assim ninguém volta a sua cor
Aprendido que o cadarço frouxo
Não segura nenhum caçador
E agora ela entende o momento
De agradecer somente a quem fica
Casa, ninho, asa que descansa
Quando ir não destrói o que habita
Quando o tempo não for mais o tempo
Quando a marca não mais desbotar
Ela vai terminar o bordado
Ela vai saber se podar
Porque horta, para crescer grande
Só se poda quando se rega
Quando o tempo não for mais o tempo
Ela vai enxergar quando cega.
A mão cinza e o dedo gelado
Vão provar que soltar é fugir
Vão tocar no peito esgoelado
Como se morto pudesse sorrir
Quando tudo não for mais a tora
Quando a hora não for o seria
Toda cura será para agora
Todo precisar saberia
Pelo belo de (se) achar mais bonito
Dentro d’olho de quem faz caminho
Casa, tranca, risco na parede
Quando tempo não se faz sozinho
E ela vai saber ceder,
Vai pedir
Demorado
Quando o tempo não for mais o tempo
Finalmente não será (mais) calado
Que de tanto corpo sem vida
Parou de ter tempo para viver
Mas quando o tempo não for mais o tempo
Não terá tempo é para morrer.
(Vanessa Brunt)
Tudo o que ela precisa
É desaprender a morrer
Que de tanta morte-viva
Acostumou-se a se refazer.
Por onde a pulsação anda
Ela arrasta todo o caixão
E onde aparece uma sombra
Prepara o buraco no chão.
Pega o corpo defunto molhado
E levanta inteiro outra vez
Sem crer em dia ensolarado
Que poderia enxugar os clichês.
Faz flor na terra esburacada
Mas não acredita em quem se diz vivo
Arranca das costas facada
E não confia nos curativos.
Tudo o que ela precisa
Ah!
É desaprender.
Que de tanto ser natural, morte
Nem acredita mais em benzer.
Não fecha os olhos em cochilos longos
Nem mesmo permite que dure o repouso.
Procura provas de que o pernilongo
Fará outro homicídio culposo.
Tão amada quando quase-sem-alma.
Tão adorada quando em autópsia.
Porque para os quase-sem-vida
Tantos batem palma.
E quando ela quase-vai,
Sempre vem a biópsia.
Tudo o que ela precisa, oras!
É uma história para não se enterrar
Um livro, uma água fresca, uma semente
Que vai florear.
Uma paciência de Jó
Para entender quem muito voltou
Dos mortos, terra na garganta
De onde ninguém mais pisou.
Um filete de luz quando o escuro
Vier de mansinho pós-sol
Um sentimento todo seguro
De nem morrer, nem viver
Em prol.
Apenas coisa bonita, que não fecha
A entrada do ar que respira.
Tudo o que ela precisa
É aprender mais o que admira.
Porque
Quando o tempo não for mais o tempo
E o doer não for a-versão
Quando tanto não der n’outro pranto
Quando o sim for menos que o não
Ela chora, ardendo, gritando
Faz calar toda, tanta, ilusão
E o peito, cremado, berrando
Diz, enfim, que chorou de emoção
Sabe, aqui, que tudo faz motivo
Quando a hora não é de moer
E o bordado, bordado agressivo
Sabe, enfim, n’outra mão se caber
E o sentido que ninguém achava
Escondido, no que era pra’si
Faz resposta, assim, intuitivo
Como se choro pudesse sorrir
Entre adeus, chegadas e meios
Prefere ter tudo onde possa ficar
Porque voltar, já não suficiente
Faz a dor calejada sarar
Mas fica inda batendo tão roxo
E assim ninguém volta a sua cor
Aprendido que o cadarço frouxo
Não segura nenhum caçador
E agora ela entende o momento
De agradecer somente a quem fica
Casa, ninho, asa que descansa
Quando ir não destrói o que habita
Quando o tempo não for mais o tempo
Quando a marca não mais desbotar
Ela vai terminar o bordado
Ela vai saber se podar
Porque horta, para crescer grande
Só se poda quando se rega
Quando o tempo não for mais o tempo
Ela vai enxergar quando cega.
A mão cinza e o dedo gelado
Vão provar que soltar é fugir
Vão tocar no peito esgoelado
Como se morto pudesse sorrir
Quando tudo não for mais a tora
Quando a hora não for o seria
Toda cura será para agora
Todo precisar saberia
Pelo belo de (se) achar mais bonito
Dentro d’olho de quem faz caminho
Casa, tranca, risco na parede
Quando tempo não se faz sozinho
E ela vai saber ceder,
Vai pedir
Demorado
Quando o tempo não for mais o tempo
Finalmente não será (mais) calado
Que de tanto corpo sem vida
Parou de ter tempo para viver
Mas quando o tempo não for mais o tempo
Não terá tempo é para morrer.
(Vanessa Brunt)
2. ELA TERÁ UMA CASA DE CAMPO

Tenho sentido falta de mim.
De um lado antigo que precisou
adormecer.
Ilustrações jogadas no motim.
Aquela sonhadora que via o sol
antes-dele-nascer.
Mas não queria voltar a ser ela
pura e simplesmente.
A que sou hoje não é só mais forte,
sabe também enxergar beleza onde
a outra não via frequente.
A de hoje sabe que ser boa
é também saber quando ser vilã
em um conto jogado.
Só não queria ter que ser ela
sem poder ser também da de ontem
um bocado.
Tenho sentido falta da moça
que degustava a apreciação.
Com tempo ou sem, ela era pura
agonia, verdade, demora, visão.
Agora, a de hoje balanceia, não pode
ampliar um pouco do tanto a todo momento.
Queria que para ser ela não precisasse
matar um pedaço do tempo.
Queria que dessem as mãos;
a que tanto chorava
e as rugas que secam a água salgada.
Queria que fizessem plantão;
a que nem descabelava
e a que para tudo rios-remava.
Quiçá, no abraço delas more o equilíbrio,
que ainda não sei se encontrei.
Tenho saudade de quem não perdi
e nem tampouco precisei.
Clamo todas elas! Clamo.
Porque preciso sim.
Ora uma, ora outra.
Espero que um dia, nenhuma viva sem mim.
Tenho sentido saudade, tanto,
mas nem sei como fazer esse convívio
entre uma senhora sem espanto
e outra que só via declívio.
Elas vivem brigando, veja,
quando tento apresentá-las.
Talvez, olhe bem, a cereja,
seja uma casa de campo a olhá-las…
No dia em que aquela gente não obrigar nenhuma
a surgir.
Tenho sentido saudade.
Quem sabe passe
quando ninguém
precisar
fingir.
Quando a textura da flor
fizer no polegar
algo que se (a)guarde.
Quem sabe dure o cobertor…
quando todas elas puderem ficar
até mais tarde.
(Vanessa Brunt)
3. PARA NÃO DESMORONAR

Um rei não impera rebatendo.
Ele impera tomando decisões.
Vida firme não se vive só vivendo.
Vive-se matando situações.
Obra de arte de verdade sabe
que toda atitude é um grande detalhe.
O rei acaba com tudo antes que tudo acabe.
Porque nada é feito só do que lhe calhe.
Os odiados por não serem manipulados
sabem fazer flores em terras de enterrados.
Veja bem.
Um rei de verdade não se diz rei
ao ser enclausurado;
ele dá os comandos,
ele mata os poréns.
Ele rodeia o castelo,
ele protege os leais,
e diz que odeia farelo:
como o insuportável
que livra o reino de baratas,
guerras e marginais.
Quando ele tem faca nas costas,
podem chamá-lo de vilão;
esse é custo da mesa posta
e de dar a paz a uma nação.
Pode ser incompreendido,
é tanto quanto indispensável.
Quando nunca corrompido,
lá vai o-nada-sociável.
Um rei não impera se não for exagerado.
Um rei não impera dando tempo
para que se veja.
Melhor outro massacre do que
povo enjaulado.
Melhor ser veneno
do que dado de bandeja.
(Vanessa Brunt)
4. NAS PASSAGENS
Você saberia hora de retornar se todo mundo for pr'outro lugar?
Quando todos olham, refutam a visão, você saberia manter posição?
Quando todos olham, refutam a visão, você saberia manter posição?
Na cartada da manga, no pé do assoalho, você saberia o que faz agasalho?
Talvez não seja nem a hora de voltar.
Você saberia passar frio para passar?
Você saberia antes de saber?
Nem todo mundo sabe.
Pode ser?
Ao escovar a trança do autoconhecimento,
seja dor ou seja cura,
mas nunca contentamento.
Veja a hora, seja dura, só assim que há cimento.
Veja agora o que perdura e não é coisa de momento.
Porque você sabe quando já é hora.
Você não sorriria quando a bochecha cora?
E no dia de ir, no tanto que se esquece, você sabe agradecer (somente) a quem permanece?
Na constância, (r)exista.
O contrário não existe.
Ser feliz é ser verdade antes de ser alegre ou triste.
(Vanessa Brunt) • @vanessabrunt
Veja a hora, seja dura, só assim que há cimento.
Veja agora o que perdura e não é coisa de momento.
Porque você sabe quando já é hora.
Você não sorriria quando a bochecha cora?
E no dia de ir, no tanto que se esquece, você sabe agradecer (somente) a quem permanece?
Na constância, (r)exista.
O contrário não existe.
Ser feliz é ser verdade antes de ser alegre ou triste.
(Vanessa Brunt) • @vanessabrunt












