Frase do Dia



⁠Transbordo em tudo. Fico onde couber.
@VANESSABRUNT

04 POEMAS SOBRE RENASCIMENTO | DE VANESSA BRUNT


Mais do que agradecer a quem fica, observar o que permanece. Ser um acúmulo de mortes e, ainda assim, enxergar em buraco apenas primeiro passo para fazer nova flor: é isso o que diferencia quem busca o ‘dê pois’ e quem se empaca. 

Ressignificar a história, não as pessoas. Lembrar que uma vida bem vivida é uma vida que sabe que liberdade é sobre legado. E legado é sobre caráter. Caráter não é sobre a cicatriz, é sobre o que faz depois dela.

Para quem vive de renascimentos, por saber que a dor faz parte de tudo (o que não faz parte é se acomodar com ela), eis aqui quatro poemas para se ler e reencontrar.

1. QUANDO NÃO FOR ESPERA


(Recitado em vídeo acima)

Tudo o que ela precisa

É desaprender a morrer

Que de tanta morte-viva

Acostumou-se a se refazer.

Por onde a pulsação anda

Ela arrasta todo o caixão

E onde aparece uma sombra

Prepara o buraco no chão.

Pega o corpo defunto molhado

E levanta inteiro outra vez

Sem crer em dia ensolarado

Que poderia enxugar os clichês.

Faz flor na terra esburacada

Mas não acredita em quem se diz vivo

Arranca das costas facada

E não confia nos curativos.

Tudo o que ela precisa

Ah!

É desaprender.

Que de tanto ser natural, morte

Nem acredita mais em benzer.

Não fecha os olhos em cochilos longos

Nem mesmo permite que dure o repouso.

Procura provas de que o pernilongo

Fará outro homicídio culposo.

Tão amada quando quase-sem-alma.

Tão adorada quando em autópsia.

Porque para os quase-sem-vida

Tantos batem palma.

E quando ela quase-vai,

Sempre vem a biópsia.

Tudo o que ela precisa, oras!

É uma história para não se enterrar

Um livro, uma água fresca, uma semente

Que vai florear.

Uma paciência de Jó

Para entender quem muito voltou

Dos mortos, terra na garganta

De onde ninguém mais pisou.

Um filete de luz quando o escuro

Vier de mansinho pós-sol

Um sentimento todo seguro

De nem morrer, nem viver

Em prol.

Apenas coisa bonita, que não fecha

A entrada do ar que respira.

Tudo o que ela precisa

É aprender mais o que admira.


Porque


Quando o tempo não for mais o tempo

E o doer não for a-versão

Quando tanto não der n’outro pranto

Quando o sim for menos que o não

Ela chora, ardendo, gritando

Faz calar toda, tanta, ilusão

E o peito, cremado, berrando

Diz, enfim, que chorou de emoção

Sabe, aqui, que tudo faz motivo

Quando a hora não é de moer

E o bordado, bordado agressivo

Sabe, enfim, n’outra mão se caber

E o sentido que ninguém achava

Escondido, no que era pra’si

Faz resposta, assim, intuitivo

Como se choro pudesse sorrir

Entre adeus, chegadas e meios

Prefere ter tudo onde possa ficar

Porque voltar, já não suficiente

Faz a dor calejada sarar

Mas fica inda batendo tão roxo

E assim ninguém volta a sua cor

Aprendido que o cadarço frouxo

Não segura nenhum caçador

E agora ela entende o momento

De agradecer somente a quem fica

Casa, ninho, asa que descansa

Quando ir não destrói o que habita

Quando o tempo não for mais o tempo

Quando a marca não mais desbotar

Ela vai terminar o bordado

Ela vai saber se podar

Porque horta, para crescer grande

Só se poda quando se rega

Quando o tempo não for mais o tempo

Ela vai enxergar quando cega.

A mão cinza e o dedo gelado

Vão provar que soltar é fugir

Vão tocar no peito esgoelado

Como se morto pudesse sorrir

Quando tudo não for mais a tora

Quando a hora não for o seria

Toda cura será para agora

Todo precisar saberia

Pelo belo de (se) achar mais bonito

Dentro d’olho de quem faz caminho

Casa, tranca, risco na parede

Quando tempo não se faz sozinho

E ela vai saber ceder,

Vai pedir

Demorado

Quando o tempo não for mais o tempo

Finalmente não será (mais) calado

Que de tanto corpo sem vida

Parou de ter tempo para viver

Mas quando o tempo não for mais o tempo

Não terá tempo é para morrer.

(Vanessa Brunt)

2. ELA TERÁ UMA CASA DE CAMPO



Tenho sentido falta de mim.

De um lado antigo que precisou

adormecer.

Ilustrações jogadas no motim.

Aquela sonhadora que via o sol

antes-dele-nascer.

Mas não queria voltar a ser ela

pura e simplesmente.

A que sou hoje não é só mais forte,

sabe também enxergar beleza onde

a outra não via frequente.

A de hoje sabe que ser boa

é também saber quando ser vilã

em um conto jogado.

Só não queria ter que ser ela

sem poder ser também da de ontem

um bocado.

Tenho sentido falta da moça

que degustava a apreciação.

Com tempo ou sem, ela era pura

agonia, verdade, demora, visão.

Agora, a de hoje balanceia, não pode

ampliar um pouco do tanto a todo momento.

Queria que para ser ela não precisasse

matar um pedaço do tempo.

Queria que dessem as mãos;

a que tanto chorava

e as rugas que secam a água salgada.

Queria que fizessem plantão;

a que nem descabelava

e a que para tudo rios-remava.

Quiçá, no abraço delas more o equilíbrio,

que ainda não sei se encontrei.

Tenho saudade de quem não perdi

e nem tampouco precisei.

Clamo todas elas! Clamo.

Porque preciso sim.

Ora uma, ora outra.

Espero que um dia, nenhuma viva sem mim.

Tenho sentido saudade, tanto,

mas nem sei como fazer esse convívio

entre uma senhora sem espanto

e outra que só via declívio.

Elas vivem brigando, veja,

quando tento apresentá-las.

Talvez, olhe bem, a cereja,

seja uma casa de campo a olhá-las…

No dia em que aquela gente não obrigar nenhuma

a surgir.

Tenho sentido saudade.

Quem sabe passe

quando ninguém

precisar

fingir.

Quando a textura da flor

fizer no polegar

algo que se (a)guarde.

Quem sabe dure o cobertor…

quando todas elas puderem ficar

até mais tarde.

(Vanessa Brunt)

3. PARA NÃO DESMORONAR



Um rei não impera rebatendo.

Ele impera tomando decisões.

Vida firme não se vive só vivendo.

Vive-se matando situações.

Obra de arte de verdade sabe

que toda atitude é um grande detalhe.

O rei acaba com tudo antes que tudo acabe.

Porque nada é feito só do que lhe calhe.

Os odiados por não serem manipulados

sabem fazer flores em terras de enterrados.

Veja bem.

Um rei de verdade não se diz rei

ao ser enclausurado;

ele dá os comandos,

ele mata os poréns.

Ele rodeia o castelo,

ele protege os leais,

e diz que odeia farelo:

como o insuportável

que livra o reino de baratas,

guerras e marginais.

Quando ele tem faca nas costas,

podem chamá-lo de vilão;

esse é custo da mesa posta

e de dar a paz a uma nação.

Pode ser incompreendido,

é tanto quanto indispensável.

Quando nunca corrompido,

lá vai o-nada-sociável.

Um rei não impera se não for exagerado.

Um rei não impera dando tempo

para que se veja.

Melhor outro massacre do que

povo enjaulado.

Melhor ser veneno

do que dado de bandeja.

(Vanessa Brunt)

4. NAS PASSAGENS


Você saberia hora de retornar se todo mundo for pr'outro lugar?

Quando todos olham, refutam a visão, você saberia manter posição?

Na cartada da manga, no pé do assoalho, você saberia o que faz agasalho?

Talvez não seja nem a hora de voltar.

Você saberia passar frio para passar?

Você saberia antes de saber?

Nem todo mundo sabe.

Pode ser?

Ao escovar a trança do autoconhecimento, 
seja dor ou seja cura, 
mas nunca contentamento.

Veja a hora, seja dura, só assim que há cimento.

Veja agora o que perdura e não é coisa de momento.

Porque você sabe quando já é hora.

Você não sorriria quando a bochecha cora?

E no dia de ir, no tanto que se esquece, você sabe agradecer (somente) a quem permanece?

Na constância, (r)exista.

O contrário não existe.

Ser feliz é ser verdade antes de ser alegre ou triste.


(Vanessa Brunt) • @vanessabrunt




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