CRÍTICA | O DIABO VESTE PRADA 2 SABE PERMANECER MESMO QUE NÃO TENTE SE SUPERAR
quinta-feira, abril 30, 2026Resenha pela escritora Vanessa Brunt
Duas décadas após a trama original, O Diabo Veste Prada 2 retoma a trajetória de Andy Sachs (Anne Hathaway) em um novo encontro com a Runway, agora atravessando um momento delicado, mesmo sob o comando ainda preciso e implacável de Miranda Priestly (Meryl Streep). O pano de fundo poderia facilmente escorregar para clichês sobre reinvenção na era digital, mas o filme escolhe um caminho mais inteligente: usa esse cenário como base para críticas sociais sutis, reflexões sobre ego, mercado de trabalho e, sobretudo, sobre temas que não envelhecem, em debates de poder, identidade e escolha.
Há filmes que você assiste. E há filmes que parecem te assistir de volta. Este pertence à segunda categoria. Não pela grandiosidade óbvia, mas pela forma como ele te observa enquanto, silenciosamente, te conduz a uma pergunta incômoda: qual desconforto você está disposto a assumir? Porque, no fim, sempre será desconfortável:
“Sempre será desconfortável. Ou és o obrigado ou o detestável. Qual desconforto irás assumir? Um par de asas também pesa para quem não sabe pousar ou decidir. Sempre existirá algo: amais! Ou escolhes os nãos ou terás os sins definidos por quem pega o baralho e o Ás. Mais importa definir a direção do que os buracos que deves cobrir no caminho. Sempre vai ser desconfortável e sempre vais assumir sozinho. Quem não define as próprias prioridades, vira segunda opção. Ou é rebelião, coisa de louco, ou é submissão. Não é o mais forte que sobrevive, é o que mais resiste ao desconforto. O sonho exige que te prives da mão com pena e d'outro aborto. Diga-me qual desconforto preferes! Não tem como não ter nenhum. Coisa de gente grande é não apequenar o que parece só mais um. Sempre vais carregar grande cruz. Sempre será uma cruz que ninguém mais percebe. O melhor caminho sempre será aquele no qual o desconforto escolhido é um que não te reduz e um que às vezes te celebre.”(Vanessa Brunt)
Quando fui convidada pela Disney para assistir ao filme antes do lançamento, tomei uma decisão: levei comigo a minha Head de Operações da minha Agência Brunt CiAtive. Assistir a essa obra com líderes e colaboradores transforma a experiência em algo maior do que entretenimento; é quase uma aula. Há um estímulo silencioso que atravessa a sala: o de que você é capaz de qualquer alcance, desde que entenda que a dor faz parte de tudo, o que não faz parte é se acomodar com ela. Porque o impossível, no fundo, é apenas um emaranhado de pequenos possíveis.
Veja parte desta resenha em formato de vídeo, com outros detalhamentos.
A minha Head sinalizou que saiu do cinema inevitavelmente voltando o olhar para a própria rotina. Ao observar Miranda, fica evidente que a dureza que a envolve nunca foi superficial. Existe ali estratégia, visão e uma construção de longo prazo extremamente precisa. Cada decisão carrega uma arquitetura invisível de acertos futuros. Esse olhar para o longo prazo é o tipo de liderança que, vista de fora, pode parecer fria, e em certa escala, de perto, revela consistência.
Isso dialoga diretamente com a realidade de quem lidera: muitas vezes, é necessário saber criar testes, provas, e análises. Como afirmo: Quem não define as próprias prioridades, vira segunda opção. Existe uma camada interessante sobre permitir que o outro se prove. Liderar também é isso: saber quando intervir e quando observar. Saber ser o escudo da marca, e também o reforço de que só é protagonista quem compartilha. Afinal, conte sua história ou ela será contada de outro jeito.
Narrativamente, o filme começa com uma sensação quase fragmentada. Como em colcha de retalhos, cenas que nos capturam pela nostalgia, mas que transitam rapidamente por ganchos ainda soltos. Aos poucos, no entanto, ele se reorganiza, encontra o ritmo e cresce. E cresce justamente onde menos tenta explicar: nas entrelinhas.
Os looks continuam icônicos, mas agora não são exibidos como espetáculo. E isso é coerente com o momento da narrativa: mostrar que liderança e poder é também sobre o que não é dito. É ali que o longa encontra sua força, nas nuances.
Essa escolha não é estética apenas: é conceitual. A produção confia no espectador. Confia que você vai observar os looks, interpretar, conectar. Confia que não precisa ir além em certos diálogos que, para bom entendedor, já deixaram suas mensagens. Desta vez, não há uma necessidade constante de explicar ou reforçar. E isso eleva a obra a um lugar mais sofisticado, onde pensar faz parte da experiência.
Essa confiança também se reflete na forma como a narrativa evita discursos prontos. Não se trata mais de performances, mas de decisões. De mudanças constantes. Da força que existe nas vulnerabilidades quando elas encontram direção. Há, inclusive, um lembrete que atravessa o filme com precisão: sozinhos podemos ir longe, mas juntos vamos mais rápido.
Miranda permanece firme, mas há algo diferente. Mais nuances, mais humanidade, sem que isso fragilize sua essência. Pelo contrário, aprofunda. Existe, inclusive, uma leitura inevitável: se fosse homem, talvez nunca tivesse sido chamada de “diabo”. Já Andy surge mais madura, mais experiente, ainda que carregue resquícios de uma certa imaturidade, o que pode ser intencional, só que por vezes cria um distanciamento em relação ao tempo que passou entre um filme e outro.
Outros personagens, apesar das atuações consistentes, parecem não ter evoluído na mesma proporção. Há uma sensação sutil de que alguns ficaram congelados em versões anteriores de si mesmos. E isso contribui para um leve desequilíbrio tonal em certos momentos.
Ainda assim, o filme se posiciona com clareza: não é sobre moda ou carreira. É sobre identidade. Sobre pressão. Sobre o peso invisível de existir dentro de sistemas que exigem posicionamento constante. Até mesmo os momentos cômicos carregam uma camada de seriedade, como se nada ali fosse completamente leve. Mesmo que, em certas cenas, aliviem demais uma narrativa que pedia peso.
Sendo uma obra construída em entrelinhas, até os detalhes mais discretos pedem atenção, como os tamanhos equivalentes das salas na cena final, que dizem mais do que qualquer diálogo. O poder, ali, não desapareceu. Ele apenas se reorganizou.
Talvez um dos maiores acertos do filme seja justamente não tentar superar o primeiro. Ele não busca ser maior, busca ser mais consciente. Deixa arcos abertos, perguntas sem resposta e uma sensação de continuidade que, por vezes, se aproxima de uma estrutura de série. Como se aquilo fosse apenas o início de algo que ainda pode se expandir em múltiplas camadas.
Por outro lado, essa mesma escolha traz um ponto de tensão: o final. O filme constrói bem, promete densidade, mas conclui com menos força do que poderia. Não é um final ruim, é um final pequeno diante do tamanho da história. Falta impacto. Falta aquele deslocamento interno que permanece depois que a tela escurece. Faltou aprofundar mais aquilo que já estava ali, latente.
E, ainda assim, funciona.
Funciona especialmente para quem vive equilibrando força e sensibilidade. Para quem lidera, cria, decide. Andy representa isso com precisão: uma nova forma de rebeldia. Não a que confronta, mas a que sustenta quem se é.
E aqui entra uma das metáforas mais fortes, ainda que sutil: a do entendimento de que o problema não é estar onde precisa se ajustar, mas sim onde não se ajustam para o que precisa. Forte fica o lembrete de que subir é também saber descer.
No fim, O Diabo Veste Prada 2 sabe fazer o que todo lider precisa: permanecer.
• Mais em: @vanessabrunt













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