SEU MURO ME RE-PARTE

sexta-feira, fevereiro 26, 2016


Você me permite. Permite sem pestanejar. Permite sem grandes protestos, como jamais permitiria que aquele goleiro não segurasse a bola. Permite como jamais permitiria que aquela onda passasse pela sua prancha sem uma correnteza prévia. Permite como jamais permitiu que eu permitisse você.

Você me permite escolher. É democrático, elegante, maduro, equilibrado. Não força a exibição da sua opinião mais de uma vez, quiçá nem pela primeira ela é assinalada. Não espeta o meu dorso com suas vontades. Não puxa os pedacinhos das minhas cutículas por fazer com suas contestações. Não marca meus braços com um alerta de mãos que apertem enquanto ando. Não gruda meus cílios com algum tom de fatalidade diante das minhas afirmações. Permite que eu vá, que eu fique, que eu berre ou que eu cale. Nas caladas e idas você até forneia a tentativa da compreensão, pergunta, mas não sacode. Permite que não seja dito. Não chega com um carro bloqueando um pedaço da passagem do meu. Você me permite escolher.

Pode parecer sensato, pode dar impressão de um balão de ar, pode até sugerir esperteza, mas quem muito concede, ou morre asfixiado ou comprova que nunca esteve ali para realmente sugar ar. "Você me permite", quando repetidamente, é sinônimo de "você me exclui".

Não é que precise do seu aval, não é que eu não saiba algumas respostas para as perguntas que lhe faço sem interrogações explicitas. A escolha vai ser minha, assim como seus pontos em cada sentença, serão somente seus. Mas isso não significa que a minha escolha deva ser guiada só por mim e que seus pontos não precisem dos suportes de algumas vírgulas minhas antes de cortar a oportunidade de demais palavras. A persistência do aviso, o comentário que invade o que não deseja ver ocorrendo, a mão que gruda na cintura por trás e que só deixa ir se o outro correr, são esses tipos de permissões, que não são covardes.

Quem sente afundo não é maduro, não segura a língua, o dedo, o pé, porque vira hospital. Vira lugar de desespero, de dependência. E só não sabe pedir réplica, quem não está concorrendo a cargo algum. O sentimento intenso é um eterno pitaco, que não permite até que sinta que vai partir para forçar. E só então, mesmo quando já permitiria desde o princípio, libera.

Sentir pelo outro é pensar em conjunto, é amarrar os cadarços dos tênis e cantar "nós andamos iguais". Quem só ouve as escolhas e comenta sobre elas, sem opinar de maneiras diferentes e persistentes, não está.

Nossos valores aparentam ser tão enlaçados, semelhantes, belos pontos primordiais citados nos diálogos mais devolutos. Mas, deixe-me alarmar: sem desespero, sem clímax, sem algum momento em que o dedo seja posto no ar, eles não são comprovados. Não são apenas nos pontos em que você faz o que cumpre suas juras, mas nos pontos em que não perde a chance de fazer novas, de não permitir de cara que.

Só posso servir para quem não me permite escolher facilmente. Para quem traz acréscimos para as minhas opções quando concorda, e argumentos inchantes quando discorda. Só posso prestar para quem só me permite decidir, mas jamais dar a primeira e então última palavra. Só posso servir para quem eu possa cuidar, para quem o meu ombro seja o primeiro. Só posso servir para quem está presente. E na sala de aula só o aluno que debate é o que comprova interesse na matéria, é o que marca mais do que o nome na lista, é o que está.

Preciso de alguém que arranque meus cabelos, que instigue a minha reflexão, que faça o complicado ser ainda mais difícil, e que fique até que eu ache uma solução, procurando comigo enquanto enlouquece o caso ainda mais. Preciso de quem queira trazer extensões, multiplicações, de quem segure a parte de traz do meu cinto enquanto me olha nos olhos. Preciso saber que posso definir, mas que terei quem desafie a minha mente para a saída mais pensada. Preciso de quem não me deixe ir, de quem lute com rugido de urgência, de quem demonstre precisar.

Discordar não é tirar a paz das seguranças, é mostrar que elas existem, porque mais do que nos momentos cruciais de comprová-las, seus instantes de clímax estão na luta entre dois que juraram, estão no desespero, na eterna cólera que não demora jamais para tomar uma atitude quando o resultado pode ser uma perda que não deseja para si ou para quem quer bem. Afinal, esses dois sujeitos só se separam por um espelho, é tudo reflexo quando é real.

Tentar impedir não é se humilhar, é demonstrar a força de saber o que quer, de saber o que defende, de afirmar tantas outras afirmações implícitas, de provar que não tem causadores de alergias embaixo do tapete, de calar a minha boca e a do mundo sobre a humilhação que é ficar com a cabeça inclinada. Humilhante é a frouxidão de um muro, de uma porta que não é porta, que é arco. Na hora das contas, a pergunta é sempre sobre até qual cálculo foi para chegar na certeza próxima do resultado. Quem insistiu, é o único que poderá fazer discurso sobre fazer história.

Prefiro o que evita e rasga do que o que dá pingos de papas, mas nenhuma água. A abertura que acaba sendo extrema, abre para todos os cantos e em todos os sentidos. Gosto mais, às vezes, quando você não responde, nem mesmo permite saber de alguma nova averiguação, não alimenta, não ludibria. Mas de nada adianta se sempre em seus atos fica uma ponta de aguardo cultivado, algo escondido como peso de porta. Você me permite sem permissão. Jamais exibe sua tese com totalidade para que o resto do meu texto siga com fulgor.

O impacto de deixar o outro totalmente livre, quando o caso é sobre um relacionamento, resulta em deixar o outro sem escolhas. Você me faz dar ré só para partir a cada "sim" que comprova que seu "não", não vale nada.

Só a desesperação faz com que algo seja feito sem atrasos e com sinceridade em conjunto, faz com que uma posição seja tomada sem esperas. Só a agonia prova as outras provas sentimentais. Os calmos demais são os frívolos. Os que compreendem muito sobre o que exibem nem imaginar, são os ilusionistas. Não fazer nada também é fazer tudo. Não decidir também é dar a palavra mais alta. Não tirar a pedra do chão também é mexer no caminho. Quem está na maca não demora para emitir sua visão, é sempre como última chance, é sempre ansioso. Quem está na ambulância não fica em cima das paredes sem tetos, é quem mais quer a vendo às pressas, é quem mais quer ajudar a caçar os melhores vereditos. Só quem demonstra precisar de comprimidos permite que o outro permita ficar.

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