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CRÍTICA | AS ENTRELINHAS E OS ERROS DO FILME ENTRE FACAS E SEGREDOS (SEM SPOILERS)


Pensar em qualquer obra da escritora britânica Agatha Christie (1890 – 1976) é ter a pretensão de ser surpreendido ou, no mínimo, de ter o coração palpitado por momentos bem elaborados de mistério. Cada quebra-cabeça da autora pode trazer entrelinhas com lições sobre falsos julgamentos, assim como passeia pela ideia de que a maior resposta já é a pergunta e de que o impossível é um emaranhado de pequenos possíveis.

Se algum clichê já atiçou uma das tramas de Christie de alguma maneira, seria muito provavelmente por ela mesma ter sido a pioneira dele. A famosa, que não por acaso é conhecida como a Rainha do Crime, chegou a publicar mais de oitenta livros ao longo da sua carreira e tem uma gama de séries e filmes como adaptações das suas páginas para as telas.

▏Inclusive, para os interessados, já tivemos uma lista de 5 minisséries atuais e baseadas em obras de Agatha Christie (conhecidas pelas fidelidades com os impressos). 

É importante recapitular tais aspectos, já que o filme Entre Facas e Segredos, que chega nesta quinta-feira (12) aos cinemas, foi feito para servir como uma homenagem às tramas da escritora. É fundamental ter em mente, porém, que o longa não é baseado diretamente em nenhum dos livros, ainda que diversos pontos possam chegar a lembrar de alguns.

BASE DA TRAMA

Com um elenco de peso e repleto de referências, que vão do clássico Assassinato no Expresso Oriente (da própria Agatha: que virou filme) até Game of Thrones, Entre Facas e Segredos (veja o trailer abaixo) tem como base o mistério envolvido na morte de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), um renomado autor de livros de suspense que, aos 85 anos, é encontrado morto em sua mansão.


Uma semana após o acontecido, chega ao local Benoit Blanc (Daniel Craig), detetive contratado para investigar se o caso pode ser dado como suicídio ou se houve assassinato. O profissional passa, então, a investigar todos os que residem ou transitam pela casa. Não demora muito para Blanc perceber que todos têm um bom motivo para ter matado o autor. 

REVELAÇÕES NÃO APENAS NO FINAL

De início, muitos podem pensar que o filme vai entrar em uma linha focada nas entrevistas feitas com os suspeitos e se passando basicamente em um único cenário. Mas o roteirista e diretos Rian Johnson surpreende e não demora muito para mostrar para o público como se deu a morte de Thrombey. O filme, então, deixa o público com uma resposta que os personagens ainda estão buscando. 

Dentro da resposta dada, estão reflexões como a que lembra que nem sempre quem cometeu um ato terrível pode ser julgado(a) apenas por ele – assim como nem sempre as mesmas punições vão ser merecidas por todos os tipos de culpados (na vida, por exemplo, existem crimonosos, por exemplo, que precisam de uma ala psiquiátrica e não da cadeia). A trama vai exibir, portanto, a ideia de que nada é preto e branco e, como tudo é repleto de nuances: não existe peito aberto com mente fechada e não existe mente fechada sem limites combinados.

A dinâmica, a partir do momento da revelção, é bem aproveitada de início e brinca com personagens que não sabem do ocorrido e os que passam a desvendar e encobrir o caso. Enquanto isso, pequenos detalhes vividos por outros personagens vão passeando por mensagens como a importância de permitir o luto e, até, por outro lado, de lembrar que a dor faz parte de tudo: o que não faz parte é se acomodar com ela.


LADOS MAIS NEGATIVOS

A trama exibe uma família repleta de camadas, com diversas personalidades que podem gerar bons estudos para psicólogos de plantão. Entre brigas e defesas, fica fácil de sentir identificação com o grupo em geral, que serve quase como um personagem a mais (para além de cada um que ali está). E é em meio a tais pontos que a comédia passa a estar ainda mais instalada, ainda que esteja presente desde o início.

O tom muito comediado, inclusive, chega a destoar das tramas de Christie, que apesar de brincarem com respiros cômicos, não deixam de ter foco no suspense. Tal tom, ainda que não caia na comédia pastelão, que deixe o filme mais leve e que gere boas cenas, chega a transformar outras tantas tomadas em bestiais e a apagar o tom de enigma (mais obscuro) que realmente interessaria para o espectador. O equilíbrio entre os dois gêneros não foi amigo do roteiro, já que um acaba enfraquecendo o outro, diferente dos destaques dados para ambos os estilos em tramas como Parasita.

Outro ponto negativo da trama é que acaba focando demais no detetive e em quem sabe de toda a verdade, ao invés de criar um equilíbrio que mostre mais dos pontos de vistas e das subtramas dos outros personagens, os quais ficam de escanteio. Esses, que não são bem aproveitados, inclusive, poderiam realmente dar mais sentido ao tom comediado, já que os peculiares egos de cada um e os casos de família seriam mais aprofundados.

O QUE MAIS ENRIQUECE

O que mais segura a trama, que se perde com os exageros na tentativa de deixar a obra mais family friend, são as impecáveis atuações. Craig apresenta um sotaque de forma natural e ainda que seu personagem acabe caindo em momentos engraçadinhos e pouco prazerosos, consegue não perder a essência apresentada inicialmente. Christopher Plummer, mesmo que apresentado apenas nos flashbacks, consegue trazer um ar mais sério para a obra, com um personagem que tenta fugir dos interesseiros, que é repleto de cheio de nuances e que performa lições de vida como: lembrar que tirar às vezes é estar dando, que liberdade é saber ao que se prende e que às vezes covardia é ficar.

Chris Evans também chega no meio do filme, mas faz isso de uma forma tão marcante que consegue passar a sensação de sempre ter estado ali. E a boa atuação de Ana de Armas, que vem para quebrar estereótipos, consegue brincar bem com os tons de ternura e sapiência, mostrando que o que parece ingênuo pode ser o mais sagaz e que ser humilde não significa rebaixar a si mesmo.

Para além das atuações, que não deixam problemas, é bacana ainda perceber que a trama se passa nos dias atuais, mas exibe uma mansão antiga e que assim tenta permanecer (ainda que restaurada). As novas tecnologias são bem mescladas ao tom vintage/retrô e direção de arte consegue deixar tudo com um tom de maior suspense (quando assim é feito) também a partir do cenário.

PERDEU A CHANCE

O filme tenta, então, aproveitar os bons detalhamentos e criar mais reviravoltas para o espectador, mas, ainda que consiga surpreender de certa forma (para quem não adivinhar o detalhe), não deixa aquele tom do cérebro ter caído em boas peças pregadas (não deixa a ideia de um incrível plot twist), já que as próprias vertentes cômicas do longa o fazem não ser mais tão levado a sério quanto poderia. 

No fim, as últimas surpresas não se dão pela sagacidade de um outro personagem ou por um plano inteligente, o que é um dos principais pontos de enfraquecimento. Se um plano bem elaborado é o que surpreenderia, mais uma vez, a ideia de levar tudo para o lado mais bobo (incluindo as noções e planejamentos dos próprios personagens), faz com que a obra perca boas oportunidades. Se a inteligência do sujeito que foi morto aparecesse em outros tantos, talvez os pontos negativos pudessem ser menores. Mas nenhum outro personagem traz a verdadeira perspicácia, ainda que isso deixe a mensagem de que tudo o que é feito apenas por egoísmo, acaba sendo automaticamente mal feito

A sensação, ao sair do cinema, pode ser de que não se viu nada demais, ainda que o filme inove em certos aspectos e tente subverter alguns clichês. Mesmo com as entrelinhas das boas reflexões, nada se destaca mais do que as chances perdidas de impactar. Se o suspense se levasse a sério o bastante ou se o roteiro fosse capaz de chocar trazendo mais a inteligência de algum dos componentes (não de uma forma rasa), talvez a emoção, que no fim é quase nenhuma, pudesse ser outra.

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NOTA: 5.5 [DE 10]
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