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Buraco é apenas primeiro passo para plantar a minha nova flor.
@VANESSABRUNT

CRÍTICA | O CHAMADO DA FLORESTA: UM FILME REPLETO DE SIMBOLISMOS PARA QUALQUER IDADE (SEM SPOILERS)


O Chamado da Floresta (The Call Of The Wild), adaptação do livro homônimo (1903) de Jack London, chega nesta quinta-feira (20) aos cinemas e traz diversas lições sobre liderança, empreendedorismo, autoconhecimento, amizade e outras nuances em formatos metafóricos. Na trama, um cão de grande coração e também grande porte físico tem a sua feliz vida doméstica virada de cabeça para baixo. Subitamente, ele é tirado de sua casa na Califórnia e levado para o exótico e selvagem rio Yukon, no Alasca, durante a corrida do ouro em 1890. Como novato na equipe de cães puxadores de trenós, Buck vive a aventura de sua vida e conhece seres humanos terríveis e outros que ganham os seus esforços.

A EMOÇÃO NOS EFEITOS ESPECIAIS

Antes de iniciar as pontuações sobre o roteiro e as mensagens da obra, é de suma importância exclamar sobre a inovação trazida pelo longa. O cão protagonista, assim como diversos dos animais apresentados, é feito totalmente com efeitos especiais e não deixa nada a desejar. Após filmes sobre cachorros passarem por polêmicas e críticas sobre estresses e riscos aos bichos, a saída dá um frescor e apresenta o que pode ser o futuro do audiovisual quando se trata do tema.

Buck, inclusive, que é um cão extremamente inteligente e sensível, consegue emocionar e fazer com que o espectador esqueça que está assistindo a ações de um cachorro que não é palpável na vida real. A trama consegue trazer tons realísticos que vão desde as "expressões" caninas até as sonoridades dos latidos, espirros, choros e mais – que casam de forma ideal com cada ato do bichano. A tristeza, a alegria, a angústia e todas as emoções do inovador protagonista conseguem ser transmitidas de maneiras intensas e de formas que não se afastam da verdade cotidiana.

Para refrescar a memória sobre o assunto, confira o vídeo (e o post) que já tivemos aqui relembrando filmes sobre cachorros e apresentando a crítica da produção A Caminho de Casa:


Buck não vai falar ou narrar como Bella (em A Caminho de Casa), mas consegue dizer tudo o que sente e pensa de formas ainda mais tangíveis. O narrador, que por vezes surge com sua voz de fundo, também colabora de forma equilibrada e faz sentido na trama, aparecendo nos momentos ideais, sem deixar qualquer tom de fábula infantil.

AS IMPORTANTES LIÇÕES

Buck vai fazer a sua caminhada de autoconhecimento e o filme pode até lembrar o esquema do que acontece no excepcional A Caminho de Casa (que consegue ser mais emocionante), mas dessa vez com efeitos positivos e metáforas ainda mais fortes. O cão, inclusive, chega a servir como representação de um ser humano em diversos momentos. Ele vai fazer papel de líder, amigo, pessoa que sofre preconceitos, de alguém que precisa superar os próprios traumas e diversas outras funções que podem inspirar qualquer pessoa que esteja passando por fases semelhantes.

Um chefe é atendido. Um líder é procurado.: essa é somente uma das lições que surgem na trama. Dividindo o que é dele e conquistando por realmente se importar com os outros, o cão aprende sobre liderança. A noção de que você já pode (sempre) começar a empreender com o que já tem em mãos, também surge em meio a tais mensagens. Ele não teria a experiência necessária para liderar, mas tem a força de vontade e a lealdade, o que mostra que as portas não precisam ser conectadas a questões de idade.

O cachorro vai mostrar que podem existir outros caminhos a serem feitos e que também podem ser corretos, ele inova com sua persistência em achar atalhos (o que serve de mensagem simbólica para tudo na vida). Por outro lado, também vemos que Buck, que era bagunceiro e se achava 'o dono de tudo', precisa escutar melhor para aprender e poder evoluir, e isso também faz parte da sua trajetória de reflexões.

Cenas que podem parecer rápidas e sutis, carregam grandes mensagens na produção. Quando Buck opta por caçar um coelho, mas ao chegar nele, não o mata, ele está representando a necessidade de uma competição saudável e do respeito acima de tudo, assim como a ideia de não chegar querendo fazer tudo ao mesmo tempo quando se alcança algo na vida (porque isso pode destruir os caminhos conseguidos).

Quando Buck está caçando ouro, ele consegue pegar um enorme pedaço, mas a pessoa que está ao lado dele está tão focada no pequenos pedaços de ouro que achou e não está 'olhando para o outro' (para ele), o que faz com que não veja o enorme pedaço conseguido. São momentos repletos de entrelinhas assim que precisam ser vistos, percebidos e conversados durante e após o filme. É uma obra sobre metáforas imagéticas, para além dos diálogos  que muitas vezes também trazem suas boas lições.

Algumas cenas,  por exemplo, em que Buck tem "visões" ao enxergar um lobo gigante que ninguém mais vê, podem ser levadas para um lado espiritual, mas também podem ser compreendidas sem tal angulação. Trata-se de como ele passa a se mentalizar (querendo ser daquela forma) – até perceber que ele, como ele é, também pode ser tão grande quanto.

Para alguns, o detalhe pode também ser a representação de bons momentos aos quais ele se apega para superar dores... ou, até, algum espírito de luz que o dá suporte. Independente de como for encarado esse simbolismo que deixa mais portas para interpretações, são formas de captar o quanto quando colocamos a energia em algo e ouvimos ao nosso interior acima do que diz a sociedade: estamos amadurecendo.

Dentre tantas entrelinhas, o cão esconde as bebidas do amigo alcoólatra, mostrando que, por vezes, precisamos 'enfiar a colher' na vida alheia para o bem do outro. E, assim, de papel em papel, ele exibe que todos somos multifacetados, que todos podemos abraçar nossos diversos talentos (e que eles podem se unir para ficar mais fortes) e que não precisamos pertencer a um só lugar contanto que estejamos sendo honestos em todos pelos quais passemos.

UMA MENSAGEM PROBLEMÁTICA

Entre tantos simbolismos, a obra é dividida em dois atos. O primeiro, é mais dinâmico, e mostra o início da maturidade do nosso protagonista. O segundo, é mais focado no conhecimento e na administração das suas emoções. Pode ter quem sinta que o ritmo é um pouco perdido quando a segunda fase entra em questão, mas assim é a vida: com altos, baixos e momentos que parecem planícies, mas que na verdade podem estar sendo picos se nos jogarmos neles de cabeça. Uma aventura intensa não precisa ser repleta de clímax para ser densa o suficiente (leia sobre o assunto aqui).

Alguns tons que podem soar infantis aparecem nos vilões da obra, mas não tiram os toques sérios dos momentos mais dramáticos, e deixam o filme com mais gosto de obra feita para toda a família. O que realmente vira problema no longa são alguns momentos que passam mensagens tortuosas e que acabam se desfazendo de tantas outras.

A produção tenta ser frenética e acaba mostrando as diversas vidas que passam pela vida de Buck e marcam seus aprendizados, mas em meio a isso temos seres humanos (que são postos no filme como boas pessoas) abandonando seus cachorros como se fosse algo normal e aceitável. A obra tenta mostrar como pessoas passam e vão na nossa trajetória, mas sempre continuamos umas nas outras e por isso devemos cuidar do que fazemos em relação a cada um, mas, ao tentar mostrar essas idas, acaba romantizando o abandono (que pode representar diversos entre humanos também).

Assim como a romantização do abandono animal em diversos momentos, são várias as subtramas que poderiam ser mais bem aprofundadas. Mas a dor de algumas dessas desatenções e idas são bem demonstradas em certos momentos por Buck (e outros cachorros), o que pode amenizar o caso. E, ainda com tal erro brusco nos ensinamentos passados, o filme não deixa pontas soltas e consegue ter um roteiro que toca nas emoções, diverte e aquece sendo redondo e no qual as variadas lições profundas e poéticas se sobressaem.

NOTA: 8.0 [DE 10]
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