Frase do Dia



Não chore pelo que se foi. Lute pelo que está. Por vezes, perder é ganhar em dobro. | Acompanhe os teasers que estão saindo no Instagram (@vanessabrunt). Vem surpresa por aí!
VANESSA BRUNT

TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR: O FILME NACIONAL QUE DEIXA O CORAÇÃO QUENTINHO | CRÍTICA


O filme nacional Talvez uma História de Amor, protagonizado pelo ator Mateus Solano, foi lançado nos cinemas nesta semana e conseguiu atingir em mim uma sensação que há muito tempo uma obra cinematográfica não tinha cacife para alcançar.

Leve e inteligente, sem precisar cair para o lado dramalhão e nem mesmo para a comédia propriamente dita, o longa traz entrelinhas para atingir intensos debates sobre autoconhecimento e relacionamentos amorosos. Entenda as principais mensagens do filme na crítica abaixo (sem spoilers).


O Sem Quases agradece à equipe da Espaço Z pelo convite para conferir a obra em primeira mão.

 E você, já assistiu ao filme? Quais as outras entrelinhas que pôde captar? O seu emocional foi tão tocado quanto o meu? Não deixe de compartilhar.
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VÍDEO: SAIBA QUAIS SÃO AS ENTRELINHAS METAFÓRICAS E AS FALHAS DO FILME 8 MULHERES E UM SEGREDO | CRÍTICA


O filme Oito Mulheres e um Segredo chegou aos cinemas nesta semana com um elenco estrelar. Sandra Bullock, Rihanna, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Cate Blanchett, Mindy Kaling, Awkwafina e Sarah Paulson formam o eixo protagonista da obra. Com um roteiro cuja base vai profundamente além do literal, a produção formula simbologias através de entrelinhas figurativas e recheadas de críticas sociais – voltadas a temas como a sororidade.

O longa, porém, apesar das sagacidades quase poéticas, contém problemáticas decepcionantes. Entenda as entrelinhas metafóricas do filme e descubra as falhas na crítica:


O Sem Quases agradece à equipe da Espaço Z pelo convite para conferir a obra em primeira mão.

ATUALIZAÇÃO | A crítica não contém spoilers, podendo ser assistida tranquilamente por quem ainda não foi conferir a trama.

Por conta de um pequeno problema técnico, o plano de fundo da gravação ficou levemente inclinado. Mas dá para acontecer um perdão neste caso, não é? Fico devendo um abraço esmagador. Para uma melhor experiência, não esqueça de ir nas configurações e optar para assistir em HD.

✘ E você, já assistiu ao filme? Quais as outras entrelinhas que pôde captar? Visualizou mais falhas na trama? Não deixe de compartilhar.
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13 CURTAS-METRAGENS DE ANIMAÇÃO PARA DAR PLAY E REFLETIR AGORA MESMO


Assim como ilustrações podem ser/formular artes críticas e poéticas intensas, curtas-metragens de animação podem agregar lições maduras e aprofundadas que não se fixam para um público específico. Nos últimos meses, tenho descoberto curtas do gênero que formulam sequências de metáforas sagazes e significativas para discussões de temáticas diversas e atuais, que vão desde críticas a aspectos dos relacionamentos humanos até reflexões sobre sucesso e empreendedorismo. Com o desejo de amplificar a busca e disseminação de artes tão meticulosas, formulei um compilado com alguns dos melhores curtas ilustrados que tenho devorado e digerido nos últimos dias [pontuo, porém, o alerta de que eles não estão em ordem de preferência/favoritos]:

 FELICIDADE | HAPPINESS


O curta Happiness (2017), criado pelo ilustrador e especialista em animação Steve Cutts, provoca reflexão sobre busca da felicidade constante em um contexto social e econômico que favorece justamente o oposto. As metáforas vão ainda mais a fundo e criticam, por exemplo, a falta de respeito ao próximo – que, sem que se perceba literalmente no cotidiano, gera a falta de amor-próprio.

O fato da produção trazer o esgoto como representação do nosso mundo atual, também não é algo 'gratuito', já que desde o início vemos as "doenças sociais" sendo disseminadas (é possível perceber o detalhe quando a mesma roupa vai sendo utilizada por todos os ratos, por exemplo) sem que algum grupo se imponha, verdadeiramente, para fazer a diferença.

É importante frisar que a crítica principal da obra não fica somente para o consumismo e a busca incessante da felicidade, mas, sim, para a noção da busca de escapatórias e do individualismo posto sempre como prioridade, ao invés da caça por aquilo que possa um objetivo de acréscimo para si e para outros – que a única forma de ser imortal (deixando um legado) e construir algo com uma constância que realmente nos segure nos momentos de queda.

FOCO NA TAREFA x FOCO NO RESULTADO

O curta já foi indicado, aqui no Sem Quases, em 2016, na postagem de 15 vídeos, incluindo curta-metragens, para assistir e refletir. No compilado referido, existem vídeos de diversos formatos e narrativas e, entre eles, estão alguns curtas de animação. Foco na Tarefa x Foco no Resultado é uma das produções que considero mais reflexivas no âmbito das animações e, portanto, precisei repeti-la nesta listagem. 

A animação de 2011 sinaliza a importância de conhecer e planejar uma ação atrelada ao resultado esperado, ou seja, saber o porquê, para quem estamos realizando e onde queremos chegar. A base do empreendedorismo, que relembra o quão é substancial buscar uma solução para um problema que o público busca (sem que, muitas vezes, sequer perceba), é um dos aspectos que fica nas entrelinhas.

A obra passeia por duas mensagens primordiais: a importância das pausas (do lembrete de que estar pausando é também estar fazendo e continuando) e a noção de que somente o esforço e a persistência não bastam. É sobre o lembrete de que não merece o prioritário aquele que não sabe abrir mão do trivial. E, para perceber o que é trivial e prioritário, é fundamental o alerta de que ação sem respiração, asfixia. E, pior, cega.

Com produção de Antti Hakala, no produto são apontadas três lições para a realização de ações: objetivos concisos e não apenas intenções; comprometimento com o resultado e não apenas conceber possibilidades que não se efetivam; embasamento sobre fatos e dados e não sobre suposições. É possível ler uma análise mais ampla na primeira postagem em que o curta esteve presente.

 CORAÇÃO | HEART

Idealizado por Erick Oh, Heart (2010) apresenta questões através de metáforas e símbolos abstratos, ilustradas por representações do coração humano, que é descoberto e descartado, mas cobiçado por todos que o vêem. A produção questiona os chamados de jogos sociais, que tendem a impulsionar, em qualquer relação humana, o desejo de cada parte de 'sair por cima', de vencer algo que, no fundo, sequer deveria/precisaria ser visado como uma guerrilha.

O curta demonstra o quanto, para ter um verdadeiro amor-próprio, é necessário saber ser entrega sincera, já que quem mais tenta 'roubar o coração do outro' mostrando 'as armas' (mistério, mentiras, 'joguinhos'...) e não a leveza do bom caráter, da gentileza e do altruísmo, é quem mais acaba ferido no final.

A obra foca em demonstrar o quanto, com tamanha ambição e pouca solicitude, o que ninguém quer (um coração solitário, relações que machuquem...) a sociedade acaba alimentando aspectos negativos que nenhum componente dela anseia por. O desrespeito, a falta de empatia e todos os quesitos indesejáveis em um laço, acabam sendo disseminados a cada momento em que mais uma pessoa foca em 'ganhar' mais do que em ser ou estar.

Com a visão de que as fraquezas são as fontes das nossas maiores forças, o curta acaba trazendo, em entrelinhas, alertas como o questionamento: Por que quando alguém chora no meio da rua vemos aquela pessoa como fraca e não como forte? Ou, ainda: Porque definimos tantas etapas para algo que depende mais da intensidade do que do tempo de ocorrência? Assim, a ideia de que quem não cobra [parando para dialogar], é picado, fica também evidente.

A produção, portanto, acaba por trazer uma conexão extensa de diversas reflexões sobre os relacionamentos humanos, trazendo uma forte ligação com a necessidade, por exemplo, de saber abdicar de vários tópicos da própria vida desde o início de uma nova história. Todos os pontos abordados trazem um bom lembrete para o trecho do poema Para Sua Alteza:

"Você quer ganhar. Eu quero amar.
Você quer tudo. Eu quero ter.
Você nada, onda e mar. 
Eu: rio.
O amor é um jogo ganho 
para quem sabe perder."
(Vanessa Brunt)

FAÇA A ALEGRIA ACONTECER  | MAKE JOY HAPPEN

A obra Make Joy Happen – sem ano de produção encontrado  traz reflexões, feitas através de metáforas representativas, sobre preconceitos/julgamentos com falta de empatia. O dono do cachorro o julga como dramático e baderneiro, simplesmente por 'olhar rápido demais' para ele e não tentar imaginar o que pode acontecendo para que o cão tenha as tais reações. Caso ele parasse um pouco para analisar e prestar atenção mais afundo, veria o quanto o seu amigo estava tentando defender aquela relação e aquele objetivo conjunto.

Além do dono, o próprio cão julga a ave, achando que ela poderia tentar buscar alimento em outro local e que estaria, portanto, apenas 'pirraçando' por estar tentando a sua fonte de alimentação ali. Os julgamentos geram, então, um ciclo, em que um vai desconfiando do outro antes mesmo de tentar compreender as motivações alheias.

Quando o cãozinho para e analisa os motivos da garça, passa a ajudá-la e acaba, inclusive, com os próprios problemas do momento. Assim, ele fica mais feliz e satisfeito, bem como deixa o seu amigo/'dono' mais radiante também.

A produção, feita por Kyra e Constantin, foca no lembrete, portanto, de que vivemos em um ciclo social em que é disseminado o costume de julgar ao invés de tentar ajudar e compreender (para que seja possível colaborar com o outro). Quando ajudamos o próximo, sempre há ganhos próprios que surgem disso, e é com tal mensagem que o curta faz sua base.

O vídeo lembra, inclusive, o curta Gentileza Gera Gentileza, que pode ver visto na postagem dos 15 vídeos do Sem Quases.

 ZERO


É fato que o caráter não se trata da cicatriz, mas sim do que faz depois dela. Logo, é a forma como criamos e aproveitamos as oportunidades que nos definem como capazes, assim como a maneira com que nos preparamos para o surgimento de uma porta futura (afinal, sem tal preparação, caso a porta surja, talvez não seja possível abri-la). Apesar de tais aspectos basilares, porém, vivemos em um universo repleto de racismo, machismo e outras variadas problemáticas, as quais tendem a julgar a capacidade de um ser humano por quesitos que não dependeram das suas próprias escolhas: como gênero e cor da pele.

Pensando nas oportunidades que, infelizmente, ainda são limitadas socialmente por uma característica de nascença é que surgiu o curta Zero (Australia, 2010), escrito e dirigido por Christopher Kezelos e produzido pela Zealous Creative, estúdio que criou também o lindo curta The Maker.

A trama Zero, que valoriza o que torna únicos e defende o poder das aspirações e escolhas como motivos que deveriam ser os únicos para oportunidades e perseveranças, nos apresenta ao personagem homônimo, que não escolheu nascer com o número 0 cravado em seu peito.

Por conta do que veio nas suas características de nascença, Zero tem qualquer possibilidade de crescer negado em uma sociedade dividida por esses números (que representam classes sociais e outros diversos quesitos que geram segregações). Ao conhecer uma mulher que também é 'um zero', o número que tanto o perseguia acabou não sendo tão importante. Mas o amor entre eles era proibido (perante uma sociedade que não desejava 'mais zeros' nascendo) e, logo, as autoridades buscaram um jeito para separá-los.

O curta, que já ganhou mais de 15 prêmios ao redor do mundo, traz entrelinhas metáforas diversas no seu decorrer, com um desfecho que ganha o ápice da reflexão crítica. Talvez, visando a obra em uma primeira e mais superficial olhada, fique a impressão de que tenha faltado, para a base analítica da trama, mostrar o poder que o personagem Zero teria de se reerguer e criar oportunidades por si só. Mas, no fundo, nada alcançamos totalmente sozinhos. É preciso saber se cercar dos ambientes e das pessoas que podem nos acrescer, nos compreender ou nos 'tirar de certas caixas' desejando nosso bem e ampliação. Assim, o que nasce da união entre 'os dois zeros' no curta, é a representação de tudo o que pode surgir de bom e grandioso quando lembramos que amor-próprio é também sobre não aceitar o que diminua os nossos bons valores, princípios e buscas principais.

A LUA LA LUNA

Indicado ao Oscar em 2012, o curta da Pixar, recheado de metáforas, reflete sobre a importância de atos feitos com carinho, paixão e respeito para chegar a resultados desejáveis. Logo, a produção reflete sobre importâncias que se conectam imensamente com o trecho do texto Porta Fácil É a Única Porta:

"(...) Esse negócio de dizer que o que vem fácil, vai fácil, é um gigantesco levantar de muros, é puro embaraço. Só ocorre assim para quem não rega depois de receber a horta, para quem viu a facilidade inicial de algo como aviso de não indispensabilidade da dedicação. E, para ser fácil, de fato, é justamente o contrário requerido. O amor, só é amor, se construir fácil. A paixão, só é paixão, se voltar fácil. O talento, só é talento, se fluir fácil. O encanto, só é encanto, se nascer fácil. O prazer, só é prazer, se durar fácil. O fácil é o único tipo de pé que faz valer a caminhada nas pedras. O que pede demasiado ardor e vem com um apanhado de barreiras, só é tesouro se, no fundo, ou melhor, no caminho, desembaraçar fácil. Paciência somente para o que der paz e ciência."
(Vanessa Brunt)

La Luna ainda traz crítica sobre aqueles que não buscam compreender o tempo de feitura do outro ou a forma diferente que cada um tem de chegar ao mesmo ponto final. Caso 'fulano' demora um pouco mais de fazer tal obra, por exemplo, pode ser porque ele tem uma técnica que requer mais cuidados e que, de alguma forma, poderia ensinar a 'ciclano' (que faz mais rápido), como ser ainda mais eficaz: caso ambas as maneiras permitissem misturas (aprendendo uma com a outra).

A necessidade de permitir a autonomia alheia para haja que o real aprendizado para cada um (sabendo deixar o outro passar por fases de sofrimento, por exemplo) é outro ponto crítico da trama, que traz o lembrete de que, por vezes, perder é ganhar em dobro.

EQUILIBRAR | BALANCE

Mais uma vez, temos na lista um curta que já foi indicado, aqui no Sem Quases, em 2016, na postagem de 15 vídeos, incluindo curta-metragens, para assistir e refletir. A animação de Wolfgang e Christoph Lauenstein (1989), não poderia ficar de fora de um compilado de curtas do gênero, ainda que esteja sendo posto, mais uma vez, no nosso espaço. O vídeo, apesar de antigo, continua com uma temática que, infelizmente, prossegue muito atual. Sendo uma demonstração do equilíbrio dentro de sistemas de relações humanas, a obra apresenta o quanto o egoísmo destrói a existência da coletividade, extinguindo, inclusive, o poder das funções particulares. É possível ler uma análise mais profunda na postagem dos 15 vídeos, no qual foi feita a análise do vídeo.

Na mesma postagem referida acima, existe a inclusão do curta El Empleo (O Emprego), que é tão crítico e importante quanto e, portanto, fica aqui como mais uma indicação. O filme-animação de curta-metragem argentino, lançado em 2008, questiona as relações de trabalho modernas, na qual as pessoas são tratadas como objetos. A crítica, porém, serve para todos os âmbitos da vida (como pessoal e criativo), refletindo sobre retrocessos sociais. A produção foi criada pelo estúdio de animação argentino Opusbou, dirigido por Santiago Bou Grasso e escrito por Patricio Gabriel Plaza.

ALIKE  ESCOLHAS DA VIDA

Alike é um dos meus curtas favoritos da vida e lembro da música Stressed Out em toda vez que assisto. A animação é dirigida por Daniel Martínez e Rafa Cano Méndez. Em uma vida agitada, Copy é um pai que tenta ensinar o caminho correto a seu filho Paste. Mas, por vezes, os papeis se invertem e é necessário lembrar que a voz da razão não está sempre na idade ou na noção do que seria independência. A ideia de que depender, por vezes, também ser independente e de que pausar é também 'estar fazendo', percorrem o vídeo.

O curta formula metáforas e reflexões sobre a forma de ensino e trabalho que levamos na sociedade em geral, tendo como ideia de sucesso o que, muitas vezes, é uma infelicidade encubada. Desde o início do vídeo, é possível perceber que o menino não se acostuma com o 'peso' que leva (peso esse, que serve como representação de acúmulos que aceitamos no dia a dia apenas para não parecermos irresponsáveis: mas será que essa não seria uma irresponsabilidade?

A sociedade vai retraindo a criatividade e o jeito 'fora das caixas' da criança, enquanto todos vão se acostumando a perder as próprias cores (singularidades), vivendo em um mundo de mudanças positivas rasas e de noções distorcidas de melhorias e formas de realmente fazer valer a palavra vida.

Não é um curta sobre não seguir certas prioridades, sobre não saber abdicar ou sobre não entender a importância de estudar cada vez mais e de trabalhar ao máximo para acrescer universos dentro do próprio emprego. É sobre lutar por fazer tudo isso de uma maneira prazerosa, diferente e criativa, em um universo em todos buscam por essas cores e acabam não percebendo por, justamente, as perderem.

A ARTE DE OUVIR

Animação produzida por um grupo de artistas do Sheridan College em 2015, A Arte de Ouvir traz, inicialmente, a importância do lembrete de que ensinar é também aprender e vice-versa, assim como ouvir é também meio de fala. Mas, apesar do enfoque em mensagens como: "Ficando se ensina, ensinando se aprende, forçando não se fica.", a trama passeia por um âmbito fundamental: o do quanto fazer incansavelmente, faz com que mais nada seja, de fato, feito.

Assim como no curta Foco na Tarefa x Foco no Resultado, portanto, A Arte de Ouvir firma a ideia do quanto pausar é necessário (já que é na exaustão, que o terapeuta para de analisar os próprios problemas e passa a carregar um peso que o cega), mas, traz o acréscimo: pausar o tempo inteiro sozinho, acaba não sendo tão útil quanto pausar permitindo a companhia e o mundo do outro no próprio. Por vezes, o que falta para a solução do problema, é parar de buscá-la nos mesmos lugares.

A importância de uma palavra bem empregada, uma fala adequada, um esforço mínimo para tentar ser inspirador para alguém, também surge ao trazer a noção de que motivar o outro, já é motivar a si.

PIPER


Curta da Pixar, vencedor do Oscar de 2016, a animação mergulha na lição da importância da criatividade: de como é necessário lidar com as adversidades da vida com resiliência. O curta faz jus à noção de que: Você não precisa estar certo sempre, você precisa ser verdadeiro sempre. Você não precisa acertar mil questões do existente para ser genial, você só precisa refletir sobre o inesperado.

Tratando sobre medo, crescimento e necessidades em mesclagens, o personagem acaba percebendo que a questão de superar o medo para amadurecer não é apenas sobre, simplesmente, 'superar', mas sobre saber utilizá-lo como porta para novas criações/ideias. Assim, Piper reflete sobre como receios devem ser meios proveitosos, não para impedir que você chegue no ponto desejado, mas para que chegue lá pensando em algo não antes visado. O medo pode ser a porta para uma super ação"O rio pensava que estava morrendo. Não percebia que se tornava mar." (Desconhecido).

A CASA DOS PEQUENOS CUBOS | LA MAISON EN PETITS CUBES 

A Casa em Cubinhos é um curta-metragem de animação japonês criado por Kunio Katō em 2008. O curta ganhou o prêmio do Oscar de Melhor Curta de Animação de 2009. A obra reflete sobre a tentativa do ser humano de 'enterrar/apagar' memórias que magoam, seja pela saudade ou pela decepção – e, assim, a animação critica o quanto o ser humana acaba perdendo partes essências de si mesmo ao tentar seguir por tal caminho.

Na obra, um idoso vive solitário em uma cidade inundada (que representa o mar de esquecimentos em que vivemos). À medida que a água sobe, o senhor eleva sua casa com pequenos tijolos em forma de cubos para se manter fora do nível do lago sobre o qual vive (representando a fuga das lembranças ou a fuga daquilo que 'deu medo' de continuar – medo de que causasse mágoas –). Então, um dia, seu cachimbo favorito cai e vai parar em um andar mais baixo de onde sua real moradia encontrava-se naquele momento (o cachimbo representa aquilo que consideramos como parte essencial para nós, mas que vemos como algo mais visível no cotidiano). Muito apegado ao cachimbo, ele decide comprar uma roupa de mergulho e ir atrás dele.

Ao mergulhar, o velhinho passa a reviver toda a história dele, de sua família e, claro, da casa, cujos vários andares (cerca de 10), agora estão todos submersos, exceto o último. Aos poucos, o personagem vai percebendo que o cachimbo, que era algo 'só dele', utilizado sem vínculo a outras pessoas, não era a única coisa que ele precisava para lembrar de quem é ou a única coisa a qual deveria se apegar para viver. Assim, o protagonista passa a refletir sobre a necessidade de levar todas as suas bagagens para ser completo, lidando com todas elas ao invés de tentar fugir.

Afinal, quem luta para sair da enchente sem ter certeza de tudo o que ela pode trazer, não se afoga e nem respira. Os mais vivos são os afogados, os únicos que conseguem realmente respirar.

ESPAÇO NEGATIVO | NEGATIVE SPACE
+ CURTAS DO OSCAR 2018



Antes de abordar sobre o conteúdo do curta Negative Space (2017), obra dirigida e escrita por Max Porter e Ru Kuwuhata, é válido o lembrete de que a produção foi indicada ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de 2018. O vencedor da categoria, porém, foi o curta Dear Basketball, que pode ser conferido aqui.

Outros indicados para o Oscar de Animação em 2018 foram: Garden Party (que reflete sobre o quanto aquilo que temos receio ou nojo – e, portanto, negamos experimentar –, pode ser o que colocaria em evidência o que precisamos); Lou, cujo trailer pode ser conferido aqui; e Revolting Rhymes, cujo trailer pode ser conferido aqui.

Coincidência ou não, Negative Space é o segundo curta em animação que concorre ao Oscar de 2018 em sua categoria que é baseado em um poema, desta vez feito por Ron Koertge sobre a conexão de pai e filho por intermédio de arrumação de malas de viagem. 

A mala vai representar as mensagens de vida que o pai deixa para o filho, sendo este o maior presente e legado que qualquer pessoa pode deixar para outra: suas bagagens, vivências, valores e o que aprendeu de mais profundo. Cada trecho citado pelo filho sobre a arrumação da mala, é a representação de uma lição de vida que pôde captar em conversas com o pai. Quando o menino afirma, por exemplo, que aprendeu a importância de "coisas macias estarem acima de tudo o que amassar", ele acaba refletindo sobre o cuidado para só estar em histórias que pesem mais pelos lados positivos do que pelos negativos, ou seja, sobre estar onde o 'fe-RIR'. A asseveração do personagem recorda algumas das mensagens do trecho do livro Entre Chaves:


"Quem é teu remédio e tua doença?
Quem é tua fé e tua descrença?
Quem é tua asa e teu cadeado?
Quem é teu fim e teu inacabado?
Quem é tua resposta e tua indagação?
Quem é tua verdade e tua ilusão?
Quem tu tanto mata e continua de pés?
Seja quem for, na balança: tu és."
(Vanessa Brunt)

O curta, que pode parecer simplório, traz profundidades metafóricas a cada analogia em entrelinhas. A cena em que o carro do garoto abre o zíper de uma mala, por exemplo, reflete sobre o quanto oportunidades são abertas a cada novo passo dado e isso é afirmado, ainda mais, na fala final do menino, que vem a pontuar o quanto a vida é sempre feita de espaços desperdiçados, assim como em uma mala.

Na mala, assim como na vida, é necessário selecionar o que vamos colocar dentro e o que vamos, consequentemente, retirar, para que caiba alguma outra coisa selecionada. Não há espaço para tudo, mas sempre há espaço para mudar prioridades e para reparar que esses 'espaços desperdiçados' acontecem o tempo inteiro e precisam ser revistos: eles ocorrem quando fazemos as escolhas que nos levam às piores consequências. O menos, na trama, é mais. E o mais, que é menos, é sobre sempre reler, cuidar das permanências e inová-las.

DESTINO | DESTINY

Com direção de Fabien Weibel e Manuel Alligné, o curta Destiny apresenta uma reflexão metafórica sobre a correria do mundo moderno, em que deixamos de 'nos enxergar' enquanto o autoconhecimento dá lugar a movimento robôticos e propósitos pouco aprofundados. Com reflexões sobre a giganteza do valor do tempo e sobre o quanto 'o passar dele' em um dia não deve definir todas as nossas atitudes, o curta acaba com a importância da pausa, mais uma vez, como ponto nítido.

INDICAÇÃO DE CANAL + EXTRAS

Para além das produções pontuadas acima, o canal de YouTube TheCGBros traz diversos outros curtas de animação intensos e reflexivos. Além das animações, o canal ainda acrescenta, nos vídeos disponíveis, curtas no estilo live-action. Apesar de não disponibilizar as obras com legendas (sendo a maioria delas em inglês), é possível captar as mensagens de muitas das tramas pelas cenas emitidas, ainda que o espectador não entenda a língua com clareza. Ainda há a possibilidade de encontrar produções que não utilizam de diálogos ou narrações, como muitas da listagem acima.

Outra animação válida para reflexões e que não foi colocada na listagem acima, é a premiadíssima O Farol (The Lighthouse), lançada em 2010. Apesar de mensagens que podem parecer clichê, a trama consegue emocionar profundamente e, assim, levar a críticas variadas sobre legado e valorização de emoções e laços humanos. A produção retrata a relação entre um pai e seu filho, sobre o aprendizado, amor e respeito. Desde seu lançamento, o curta já arrecadou 27 prêmios em festivais ao redor do mundo. A foto que está na abertura desta postagem, inclusive, é uma imagem do referido curta-metragem.

Já a imagem localizada pouco acima, é do curta Um Objeto Em Repouso (An Object Art Rest),
que reflete sobre o quanto algo visto como pequeno, pode ser gigantesco por toda a sua trajetória/bagagem e, consequentemente, pelo tanto que pode acrescentar em outras histórias. Logo, a trama acaba por criticar perdas de oportunidades para aprendizados, por exemplo, já que qualquer conhecimento leva a um encaixe em outros. O curta citado ainda critica a relação do ser humano com a natureza e as perdas que vai causando pela falta de valorização e cautela.

Preenchendo o compilado de complementos, o curta Farewell reflete sobre o quanto tudo o que foi perdido, na verdade, é um ganho para novas produções próprias. Nele, ainda existem reflexões sobre a importância de 'deixar ir aquilo que se ama, mas não pode ficar', ou seja, que nunca nos pertenceu e, sim, veio para engrandecer o que nos pertence ou pertencerá.

Já o História de Amor de Dois Casais, que também fica como indicação extra, pontua o quanto 'opostos não se atraem', já que eles só permanecem quando permitem evolução. Um cedendo ao mundo do outro, sem discrepância e abstração. No curta, porém, os 'opostos' são apresentados como relacionamentos que podem servir de amadurecimento e "ponte" para outros, não precisando ser ignorados, mas sim, servindo como tentativas até que se perceba que não é possível a mesclagem dos dois universos.

O vídeo Greed, que fica para a parte das últimas indicações, faz metáforas críticas sobre as consequências de cada escolha em um embate apresentado perante a ambição desenfreada. E, para além dele, Out of Sight (que pontua sobre o quanto uma porta pode ser fechada ou 'pausada' para que se encontre algo melhor depois ou para, ainda, que seja possível ocorrer um retorno mais preparado após) e Lili também são curtas que valem a análise reflexiva.

✘ Já conhecia alguma das produções apresentadas? Qual mais mexeu com o seu emocional? Tem mais algum curta de animação que você conhece e que traz metáforas interessantes e/ou aprofunda lições críticas maduras? Não deixe de pontuar!
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