CRÍTICA | AS ENTRELINHAS DO FILME: O CASO DE RICHARD JEWELL (SEM SPOILERS)

quinta-feira, janeiro 02, 2020


O caso real de um segurança que encontrou uma mochila com explosivos durante um show e salvou diversas vidas chega aos cinemas. Apesar do ato heróico, Richard Jewell (interpretado por Paul Walter Hauser nas telonas) acabou se tornando o principal suspeito do atentado e entrou em uma guerra psicológica na qual precisaria provar a sua inocência para o FBI e para o mundo.

Com direção de Clint Eastwood, o filme, que chega nesta quinta-feira (02) aos cinemas, é baseado em um livro (Richard Jewell: And Other Tales of Heroes) e apresenta diversas entrelinhas com boas reflexões, mas peca ao trazer detalhes preconceituosos para a tela, além de outras problemáticas: como ritmo maçante e a falta de impacto em diversos diálogos.


REFLEXÕES POSITIVAS

Dentre os pontos positivos da obra, está a noção de que é sempre melhor pecar pelo exagero do que pela falta. O "exagerado", inclusive, pode salvar uma relação, uma situação ou diversas vidas (como é o caso no filme) apenas por não se calar. Jewell é tratado em diversos momentos como um cara bitolado demais, já que vive noiado com mochilas suspeitas e outros detalhes. "Não é nada, para de exagerar.", dizem várias pessoas que estão ao redor dele. Mas é em um desses momentos de 'exagero' que ele descobre algo que ninguém mais perceberia (justamente por não quererem estar 'exagerando').

Tal noção serve para quebrar estigmas e lembrar de casos em que mulheres são chamadas de dramáticas ou loucas, por exemplo, já que quem é visto como o exagerado socialmente, em geral está apenas cuidando, indagando ou fazendo algo que os outros não tiveram coragem – e sabemos bem que dentro do histórico machista, quando uma mulher pergunta ou duvida de algo, é logo taxada de descontrolada e: exagerada.

"Quem exagera é que não cabe e quem não cabe é porque cresceu. Quem amadurece, aumenta por estar de mãos para cima, porque sabe que só assim não se rendeu."
(Vanessa Brunt | @vanessabrunt)


Em uma das falas mais marcantes do longa, Jewell diz aos policiais que nenhum outro segurança teria coragem, dali em diante, para reportar se visse algo suspeito, já que teria medo de ser acusado assim como o próprio Richard foi. Eis aí mais uma reflexão deixado pelo longa, já que é isso o que acontece quando a sociedade prossegue colocando culpas nas vítimas, por exemplo.
A mensagem serve para tratar de estupro, abusos diversos e variadas situações em que se pinta a vítima como vilã e isso acaba calando tantas outras.

A ideia de que nem todas as leis e autoridades devem ser totalmente respeitadas também vem à tona. Afinal, se alguém está desrespeitando você e seus direitos, você deve apenas abaixar a cabeça e aceitar? A lição que vem disso pode ser inclusa até para falar de culturas que rebaixam mulheres e outros tantos indivíduos. O que não respeita, não merece que todos aguentem calados, pelo contrário.

Dentro dessa mesma mensagem, temos a polícia coagindo o suspeito para que ele diga o que os próprios policiais estão desejando. Tudo isso faz lembrar de momentos de séries muito bem construídas, como Olhos Que Condenam, e são alertas assim que trazem questionamentos sobre os sistemas de justiças no mundo como um todo e que exibem a importância de tantas das entrelinhas do filme.

A ideia de que o passado não pode servir como única justificativa para julgar alguém no presente também surge nas lições. A noção de saber quando ficar calado tanto quanto quando falar (já que, às vezes, é necessário observar para depois argumentar melhor) também aparece em pinceladas, assim como o bullying e a gordofobia recebem críticas em algumas das cenas.


LADOS MAIS NEGATIVOS: PRECONCEITOS ESTAMPADOS

Mas todas essas reflexões não seguram a trama, que pende para lados negativos quando tenta fazer algumas outras críticas sociais. Uma dessas feias escorregadas ocorre ao tratarem de Olivia Wilde. Ela é uma jornalista que realmente esteve na história (verídica) e representa tudo o que há de mais vil no jornalismo. Ao jogar na mídia um suspeito sem ouvir o seu próprio lado e sem ter prova alguma para assim chamá-lo, Olivia quebra a ética da profissão e serve como representação para mostrar o quanto qualquer profissão é uma grande responsabilidade e pode acabar com vidas de maneiras diferentes.

Se por um lado a crítica a essa responsabilidade é importante (e, no caso de Olivia, o alerta para a falta dela), por outro é justamente ao tentar mostrar o quanto Wilde peca em suas ações que o roteiro vai para um caminho preconceituoso. A personagem decide dormir com uma determina pessoa para conseguir informações sobre o caso, o que parece dizer que uma mulher não conseguiria fazer o seu trabalho apenas com o seu conhecimento e poder de argumentação: ela precisa 'se vender' para conseguir algo.

O machismo foi tanto que o jornal vinculado ao caso na vida real pediu retratação, já que afirmaram que isso sequer aconteceu nos bastidores da situação. Olivia não teria, jamais, ido para a cama com alguém para conseguir algo – e isso chegou a gerar um certo boicote ao filme nos EUA. E é com essas e outras que o filme vai trazendo personagens sem camadas ou profundidade, ainda que algumas mulheres fortes e com princípios apareçam rapidamente, como é o caso da secretária do advogado de Richard.

Outro momento em que a obra cai em graves erros é quando Jewell faz questão de dizer que não é gay e, de tal forma, a trama, que tenta ir para um caminho de respiro cômico, apenas cria uma obra datada e com o machismo embutido nas ações e falas.


CASO REAL MAIS IMPACTANTE QUE O FILME

Mas não é somente pelos preconceitos cuspidos na tela que o longa traz problemas. A noite em que a bomba explode é pouco aproveitada. O momento é rápido, ganhando poucos minutos na obra, e os personagens que estão vivendo aquilo ganham pouquíssimo destaque. Assim, o sentimento que aquela situação poderia causar (gerando mais reflexões), acaba sendo outro ponto raso.

Durante o ritmo lento, que repete ações grotescas da polícia, o espectador pode ficar sedento por falas arrasadoras, que fariam os julgadores calarem a boca e analisarem os próprios erros. O espectador pode desejar por uma defesa criminal que deixe aquela vontade de sair batendo palmas, digna de uma série de advogados de sucesso. E, ainda que a vida real nem sempre tenha momentos assim, detalhes que realmente ocorreram poderiam ser colocados em falas que gerassem o arrepio. Mas nem isso acontece. As boas atuações não ganham um roteiro eletrizante o bastante para que sejam aproveitadas.

Apesar dos diálogos trazerem, vez ou outra, alguma mensagem interessante, não existem cenas arrebatadoras, nem pelo lado da defesa e nem pelo lado dos que estão acusando: os quais, inclusive, ganham pouquíssimo aprofundamento sobre suas próprias visões do caso.

Não há um momento em que o advogado ou o próprio Richard falem algo a ponto de fazer o espectador querer gritar: "Isso!". Mesmo com provas e argumentos em mãos, eles não usam nada disso em falas que façam a população ou a polícia arregalar olhos e se culparem pelas próprias ações. E esse toque digno de Khaleesi (de Game Of Thrones) poderia ser a chave para salvar muito do que é perdido na trama pelos seus momentos maçantes.

O longa tenta, portanto, passar a sensação de injustiça sem realmente levar quem está assistindo para as fortes emoções que uma injustiça pode causar. O espectador não sente que viveu aquela noite com o personagem e aguarda por momento de diálogos fortes que nunca chegam. Nada sobre o que realmente aconteceu para aquela bomba estar ali é também aprofundado. De raso em raso, o filme se afoga.

Assim, em meio aos preconceitos e a cenas que parecem reprisadas ao longo da trama pouco aproveitada, o caso de Richard acaba sendo um que vale a pena ser assistido apenas por ser algo real que traz/trouxe grandes e bons alertas sociais, tendo algumas dessas mensagens exibidas na obra. A história que realmente aconteceu, porém, acaba sendo muito mais interessante, forte, impactante e livre do machismo do que as telonas acabam fazendo parecer.

NOTA: 7.0 [DE 10]

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5 COMENTÁRIOS

  1. Olá!
    Eu ainda não conhecia o filme, me interesso bastante pelo gênero e agora estou um pouco curiosa sobre essa trama. O elenco é muito bom, acho que vou dar uma chance. Achei a resenha incrível, como sempre.

    Feliz ano novo!
    Beijão!
    Lumusiando

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  2. Nossa ando bem por fora de filmes ultimamente, ainda não tinha visto nada sobre ele, mas achei super interessante , com exceção dessa parte do preconceito.

    Feliz ano novo!

    Beijos
    Mari Dahrug
    https://www.rabiskos.com.br/

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  3. Olá! Gostei muito de conhecer esse filme, nunca tinha ouvido falar. Não vou assistoir no momento porque não estou na vibe para filmes assim mas, quem sabe em breve.
    Beijocas.

    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  4. Parabéns pela resenha tão sincera e completa.

    Bom fim de semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  5. Parece um bom filme, eu ainda não conhecia.

    Convido vc para participar da minha pesquisa de público
    Big Beijos
    Lulu

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