ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS SEGREDOS DE DUMBLEDORE | CRÍTICA COM ANÁLISE (SEM SPOILERS)

sexta-feira, abril 08, 2022

É preciso não confundir grosseria com personalidade forte e nem gentileza com respeito. Um líder que fala manso e que traz discursos sobre amor, também pode estar sendo abusivo. E é com reflexões políticas desse porte que Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore confirma o quanto a nova saga está seguindo a mesma crescente de amadurecimento da franquia de Harry Potter.

Isto porque, em Harry, a obscuridade e a seriedade dos temas vai ficando maior e mais profunda a cada filme; os personagens ficam mais repletos de camadas, as questões sociais vão sendo mais debatidas e as metáforas diversas – como os dementadores representando as pessoas tóxicas – também passam a ocorrer com maior força. 

No terceiro filme da saga de Animais Fantásticos, o mesmo acontece. O longa traz cenas mais fortes, delicadas e tensas, com uma atmosfera mais sombria, adulta e reflexiva, além de entrelinhas com críticas sociais mais sagazes. Tudo isso apenas mostra que esses aspectos vão estar cada vez mais firmes daqui para frente, nos próximos títulos.

O MELHOR ATÉ ENTÃO

No novo longa, Dumbledore junta um time para impedir Grindelwald (ditador que deseja 'acabar com uma raça') de ocupar um cargo importante da política internacional dos bruxos: cargo que poderia dar ao vilão a execução mundial da Supremacia Bruxa e subjulgar trouxas. Em meio ao plano, os segredos do protagonista se misturam com detalhes do passado da sua família, trazendo à tona revelações, culpas, medos e inícios de novos ciclos. É assim que protagonista deixa claro o quanto crescer é também não seguir, enfrente.

São diversas as referências a Harry Potter e muitas criaturas novas na trama, as quais fortalecem a ideia de que as repostas sempre estão ao nosso redor (basta que paremos para olhar, focando nas soluções). A obra acaba sendo um baita presente para os fãs e consegue, inclusive, funcionar sozinha, mesmo para quem não conferiu as duas anteriores. Bem redondo, alinhado, e com muito mais ação, o filme é o melhor da franquia até aqui, deixando claro que tudo o que ocorreu até o momento foi apenas uma introdução. É apenas o começo.

Logo nas primeiras cenas, fica fácil de derramar lágrimas. A produção consegue causar todas as emoções, indo dos risos mais fáceis até os soluços. Os acertos foram muitos, a começar pelo elenco.

O ELENCO

Nas mãos do ator Mads Mikkelsen, Grindewald parece ter alcançado a sua essência mais verdadeira. Ele surge muito mais intimidante, calmo, sedutor, enigmático, lascivo e cruel. As reações ambíguas, tanto quanto constantes, é que o tornam ainda mais amedrontador. 

Enquanto isso, Jude Law traz o Dumbledore dos livros para as telas. Nele, temos toda a complexidade do personagem finalmente escancarada. De forma aliviante, inclusive, temos a exacerbação do relacionamento amoroso entre os dois protagonistas. 

Não há uma atuação que tenha deixado a desejar. Dan Fogler (como Jacob) brilha imensamente, sendo ainda mais carismático. O único erro do roteiro foi, justamente, não ter dado mais profundidade e tempo de tela para alguns personagens importantes, criando sensações de vazio e confusão. 

OS ERROS

Para além de Dumbledore, nenhum dos personagens realmente ganha aprofundamentos sobre si. Os novos integrantes que chegam, surgem com poucas falas e poucos momentos, ainda que se tornem importantes para o roteiro como um todo.

Os brasileiros, inclusive, podem se frustrar, já que Maria Fernanda Cândido é impecável em todos os seus momentos, mas teve poucas oportunidades para realmente brilhar em tela. Quem não é do país, inclusive, pode sequer perceber que se trata de uma atriz brasileira. Apesar das boas surpresas que o longa traz para o povo verde e amarelo, tudo fica muito subentendido, o que é (neste caso e em outros) o maior problema ocorrente.

Tudo parece estar muito em "segundo plano" o tempo inteiro. Por mais que a trama tenha andado e que tudo ali apresente começo, meio e fim, não houve um real conhecimento sobre os novos personagens – e nem mesmo mais camadas daqueles que já existiam. 

O mesmo acontece nas cenas mais vibrantes. Elas começam aparentando que vão levar a algum lugar importante, mas logo acabam sem realmente criar um impacto decisivo (na maior parte dos casos). 

Então, apesar dos grandes acertos e de termos aqui um filme muito mais denso e bem organizado, essas lacunas atrapalham Os Segredos de Dumbledore de chegar no ápice possível. 

Faltou também novidade. Onde estão novas magias a serem apresentadas? Onde estão aprendizados que não conhecemos sobre o mundo bruxo? Os novos animais fantásticos não superaram esta lacuna. Para alguns, pode ficar a sensação de que o longa tentou se apegar à nostalgia para suprir esses espaços.

Ainda assim, as 2h23 de duração passam voando. A sensação de "quero mais" fica persistindo. Por pouco, este não foi o filme da saga que consagrou J.K. como uma boa autora de cinema.

AS ENTRELINHAS

O efeito manada é criticado durante toda a obra, exibindo o quanto o povo pode acreditar em um ditador inescrupuloso, bastando que a maioria esteja indo no mesmo barco. Mas as reflexões não param nas arcadas políticas.

Um ‘mero humano’ pode ser um dos principais. A magia sempre tem outras formas de existir. E é assim que a trama apresenta mais metáforas e entrelinhas, trazendo não apenas as questões sociais de peso, mas também quesitos motivacionais e metafóricos. 

A noção de que todos estão interligados e que ferir um é sempre uma porta aberta para todos caírem, também fica inclusa. São várias as lições, que mostram bem para onde querem ir. 

Entre cenas divertidas e muitas mais obscuras, o filme também reforça o quanto é preciso lembrar que o tempo fechado também ilumina. Afinal, as coisas desimportantes só vão ficar gigantes se você se apequenar nelas. No terceiro longa da saga, o único problema foi apequenar.

NOTA: 9 (DE 10)

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1 COMENTÁRIOS

  1. Amei sua crítica! Uma das melhores que li até o momento. Ainda não sei se vejo o filme no cinema, ou espero liberar na HBO Max, mas seja qual for a decisão, acho que minhas expectativas para ele serão supridas.
    Beijo enorme ❤ | Quase Aurora

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