SOBRE OS ÚLTIMOS FILMES QUE ASSISTI #2

quinta-feira, janeiro 28, 2016


Já fiz as minhas considerações sobre as principais mensagens de alguns dos últimos filmes que assisti (um, inclusive, entrou como uma soma na minha lista de filmes favoritos! Que aborda também o Apenas Uma Chance, que não canso de rever), e agora não poderia deixar de falar sobre esses 4 que vi na última semana. Lições sobre amor, autoconfiança, consequências de preconceitos e muito mais estão inclusas. Cada um, com suas particularidades, vale para uma chance.

  • Um Senhor Estagiário


Dica antes de tudo: não veja o trailer, tem algumas das cenas mais legais! Acho que estraga um pouco. 

Dirigida por Nancy Meyers, que guiou também "O Amor Não Tira Férias" (um xodó, que apesar de carregar bastante clichê, é leve, intenso, com excelentes mensagens e, obviamente, portanto, válido), a obra retrata a estória de Jules Ostin (Anne Hathaway), criadora de um bem-sucedido site de venda de roupas que, apesar de ter apenas 18 meses, já tem mais de duas centenas de funcionários. Ela leva uma vida bastante atarefada, devido às exigências do cargo e ao fato de gostar de manter contato com o público (e aqui já podemos ver uma das maiores mensagens do filme: só é rei quem sabe olhar como rei e servo. Mas será que ela dá esse reconhecimento aos próprios funcionários? E será que dando o reconhecimento para a equipe ela não seria ainda mais ativa? Principalmente porque ela saberia mais de como impulsionar cada um? Bom, já reparou que são muitas questões sobre liderança, não é?). Quando sua empresa inicia um projeto para contratar idosos como estagiários, em uma tentativa de colocá-los de volta à ativa, cabe a ela trabalhar com o viúvo Ben Whittaker (Robert De Niro). Aos 70 anos, Ben (o protagonista número um) leva uma vida que passou a considerar monótona e vê o estágio como uma oportunidade de se reinventar. Por mais que enfrente o inevitável choque de gerações, logo ele conquista os colegas de trabalho e se aproxima cada vez mais de Jules, quebrando paradigmas.

Robert De Niro é Ben, o senhor estagiário. Com seu jeitinho doce, simples e cavalheiresco, de quem realmente observa os próprios princípios, ele encanta a todos no escritório a ponto de mudar a vida daqueles que o rodeiam (sério, você vai querer abraçar ele, vai querer que ele seja seu avô, seu tio, seu amigo).  Anne Hathaway, no papel de Jules, personifica muito bem a mulher moderna e seus problemas. Extremamente bem sucedida, sendo uma mulher de negócios, ela sofre para balancear sua vida profissional corrida com o papel de mãe, de esposa, de filha, de mulher. Precisa superar o preconceito das mães que não trabalham e acham que ela está negligenciando a sua casa e o julgamento de investidores que acham que uma mulher não dá conta de gerir um negócio que ela própria criou.

Esse trecho simples (de um autor que não sei o nome: quem souber, coloca nos comentários, por favor), vai aparecer na sua cabeça durante o filme inteiro: "Um relógio de R$ 800,00 marca a mesma hora que um relógio de R$ 80,00. Uma carteira de R$ 600,00 guarda o mesmo dinheiro que uma carteira de R$ 60,00. Se você viajar na primeira classe ou classe econômica, chegará no mesmo destino. E a solidão em uma casa de 300 mt² é a mesma que em uma casa de 30 mt². Um dia você se dá conta, de que sua felicidade não vem das coisas materiais, e sim da alegria que sentes por estar vivo, ter uma vida útil e poder compartilhar, falar, rir, sonhar e cantar com quem você quiser. Essa é a verdadeira felicidade.". Não adianta explorar o mundo se não tem amizade/intimidade, segurança e o conforto da lealdade de ter com quem compartilhar. E também não adianta ter tudo isso e ficar preso à não busca de novos conhecimentos, junto com quem ama. E o principal: nada disso (nem dinheiro e nem mesmo amor por alguém) é suficiente para o maior sentido de viver quando se não se tem a espera! E é aí que está uma das maiores mensagens do filme sobre objetivos de vida: Os passos têm que ter a ver um com o outro, tem que ser teia. O que não adianta é ficar no que não produz mais esperas. Quando você para de aguardar ou fica estático em algo que nunca fez aguardar nada, aí sim, não adianta organização ou o milagre que for. Aguardar e fazer para parar de aguardar, alcançando o que aguardou e vendo novas esperas, é o segredo para que ter disciplina valha a pena. Porque obstáculo muda de nome para etapa quando se está onde sente esse aguardo enquanto faz. É ter uma meta sempre, chegar nela, e ter uma nova. Porque além da intimidade de um relacionamento entre seres humanos, é preciso encontrar essa mesma sensação nas próprias aspirações. Todos precisamos sentir que fazemos parte de algo tão nosso, tão intrínseco, que faz valer esforço e conquistas. Como gosto sempre de ratificar: Se não tem amor (que engloba toda essa questão da intimidade), é tudo lixo não reciclável.
Outro ponto atingido e fundamental para quem está em dúvida sobre qual curso fazer ou sobre qual escolha abraçar em alguma situação é que uma coisa abre portas para outras e temos que saber enlaçar. Ou seja, o que não adianta é entrar em um quadrado quando se quer algo relacionado a um círculo. Se você tem que, por exemplo, fazer algo para uma base segura financeira que o que você já faz não está dando, apenas utilize isso como oportunidade de crescimento. Eu, por exemplo, faço faculdade de jornalismo (para a área opinativa, de colunas, etc) e isso agrega muito para a minha escrita, minha abertura de visões e tudo o que é interessante para mim como escritora. É isso o que o Ben faz ao escolher o seu novo foco.
O mais bacana é o filme nos faz observar o quanto todas as pessoas tem certo impacto na nossa vida, assim como temos na vida delas, e diversos tópicos sobre o relacionamento entre os dois personagens principais nos trazem mensagens maravilhosas para qualquer tipo de relação: amizades, romances e por aí vai. Nos mostra o quanto um invade o outro e o quanto preconceitos (que aparecem em diferentes formas no filme, transmitindo quebras sobre julgamentos estereotipados em relação a sexo, idade e mais) podem nos fazer perder oportunidades únicas de, inclusive, conhecer mais de nós mesmos! De aprender com o outro enquanto ensinamos, de observar o quanto ainda temos para captar, de achar pontos em comum que nem imaginávamos. Até o afastamento causado pelas novas tecnologias, assim como a aproximação apoiada por ela, são aproveitados na obra.Existem dois tipos de inteligência: A que produz, que cria, e a que reproduz. São elas a profunda e a robotizada, respectivamente. A robotizada é aquela de quem consegue captar ensinamentos com certa facilidade e os repassa. Como o que aprendemos nas matérias do colegial. E a profunda é aquela imaginativa, intensa. É a esperteza da pessoa que pode não saber quase nada de geografia e, ainda assim, tem a capacidade de raciocinar, com apenas as suas ideias e ideais, captando um mundo de probabilidades sobre como poderíamos chegar mais rápido em algum lugar. Legal mesmo é ter os dois tipos, até porque um acrescenta o outro, mas o que quero dizer é que ninguém precisa ter um super pacote de tudo só porque gosta. A imaginação é o tipo mais importante de inteligência, mais do que um saber recebido. A imaginação é mais importante que o conhecimento. Conhecimento auxilia por fora, mas só o sentir socorre por dentro, e só o dentro socorre para todos os lados. Como dizia Einstein, "conhecimento vem, mas a sabedoria tarda". Conhecimento encaixa, criação expele. O que encaixa precisa ser inovado para continuar tendo força. Só o expelido pode causar a inovação. Só a inovação pode causar o expelido. Só a imaginação pode causar a inovação.  Só a imaginação pode causar a criação.  Palmas merece quem transforma, não quem cospe o lido. É fácil demais ler e repetir, difícil é ser escritor. Imitação não salva, se salvasse já tinha sido. Se já foi, se já salvou, é passado, já não é cabido. Tudo vira novo encaixe a cada segundo, para caber precisa ser evoluído. A imaginação duvida da verdade, então ela é a única verdade que temos, porque é a que mais lembra da relatividade das coisas. A imaginação e a disposição para tê-la e colocar em prática, é o mais perto da sabedoria que podemos chegar. E o filme fará pensar muito nisso. 

Ainda temos lições básicas sobre erros graves diante de uma jura: quem erra que tem que abdicar. Quem não respeitou as escolhas e promessas ditas que tem que abdicar de algo para redenção, o outro só tem que abrir espaço. E por mais que, por vezes, ambos os lados tenham suas parcelas de grandiosas culpas, um erro que traia juras é o do assassino, e o assassino que tem que doar seu tempo se quer ficar.

E preciso falar então, de um ponto que parece negativo, mas não é exatamente: você, provavelmente, vai surtar pensando que uma mensagem sobre lealdade foi jogada no lixo! Vai ficar indagando "como assim ele não contou?", mas observe nas entrelinhas: a importância de contar, a importância da sinceridade, por mais doída que seja em uma amizade, é sim demonstrada. Eles terão um diálogo (você vai entender melhor ao assistir), que emitirá o quão fundamental seria ele dizer, o quanto era necessário, não só por desabafos, mas por conselhos, por trocas evolutivas, por comprovar o bem-querer (e aqui também reparamos que amigos devem emitir suas ideologias, dizer qual a melhor estrada; mas a decisão é do outro e, depois de ouvir você, se ele pegar o caminho de barros e buracos, não o abandone. Você fez sua parte, deixe-o tomar o risco e continue fazendo o seu papel de aconselhar, apenas).

Outro quesito assim é sobre a mãe da Jules, você, talvez, espere mais mensagens sobre isso: mas observe bem a cena da casa, em que ela não sabe responder nada. Isso já é um ponto crucial e jogo aqui para que possa pensar sobre ao assistir!

O fato é que do começo para o meio o filme nos deixa esperando mais do que ele realmente é do meio para o final, podemos ir aguardando certas reflexões mais intensas, mas isso não tira as maravilhosas mensagens dele e o valor e graça de assisti-lo. Até porque muito das profundidades ficam como impulsos a serem prosseguidos por nossa conta. Mínimos detalhes devem receber atenção: como, além dos já citados, a parte em que a Jules pede para destacar uma mulher morena em uma propaganda, emitindo os patamares de respeito e igualdade que estamos lutando para conseguir ainda mais, porém que já quebraram diversos paradigmas (ainda bem!). É uma obra para pensar no futuro, para buscar mais de si e para catar, a todo momento, as entrelinhas reflexivas lançadas.

De forma doce, Um Senhor Estagiário comprova, acima de tudo, que nunca é tarde para aproveitar a vida e alcançar reconhecimentos. O humor do filme é simples (não espere se acabar de rir, mas refletir enquanto sente a leveza), mas adulto, e consiste em diálogos tocantes e situações levemente embaraçosas. E para completar, ficamos com dois pontos mais superficiais que também puxam a nossa atenção: A incrível fotografia de Nova York, que está divina no filme e a possibilidade de matar um pouco da saudade da Anne Hathaway em um universo do estilo de "O Diabo Veste Prada".

  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain


O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme sobre o impacto dos detalhes e das pessoas em vidas alheias. O início de tudo é bastante conturbado: o nascimento de Amélie (Audrey Tautou), a morte da sua mãe em frente a uma igreja, o fetiche de seu pai por um gnomo de jardim e o diagnóstico errado de um problema em seu coração. Essa sua suposta doença a deixa confinada em casa, criando para si uma vida cheia de fantasias, mas que não se difere muito do que todos nós guardamos. Cada acontecimento tem sua importância para os desenlaces, que também nos levam às noções de certos traumas que ajudam o ser humano a virar quem é.

Sem querer, a nossa protagonista acha uma caixa com coisas da antiga infância de Dominique (Maurice Bénichou). Quando encontra o dono desses objetos, Amélie descobre um novo objetivo para sua vida, que já tinha como desejo, só ainda não descoberto: fazer as pessoas felizes através de pequenos gestos, já que são eles, os mais grandiosos: "Nenhum tesouro do fundo vai estar realmente no fundo se não passa pela superfície".

O longa é de uma sensibilidade sem tamanho. A simplicidade com que tudo é retratado encanta qualquer um. Cada personagem tem um pouco de seu íntimo revelado ao expectador, sendo expostos seus gostos e desgostos cotidianos. Isso permite que eles tenham proximidade cada vez maior com quem quer que esteja assistindo. Os pequenos prazeres da vida são destacados, sobretudo, por Amélie, que adora, por exemplo, enfiar a mão num saco de cereais; gosto do qual confesso partilhar. Não é uma delícia? O fato é que isso revela o quanto ela lida com manias que exibem muito do seu interior, como todos.

Posso arriscar dizendo que é o que mais recomendo de toda essa lista, principalmente para quem está em busca de uma construção que fuja bastante dos padrões! Porque, só para começar: o filme é narrado, não por um personagem, mas um narrador externo mesmo, e isso vai trazendo ainda mais riqueza, exibindo detalhes que talvez os próprios personagens não tenham reparado (como alguém imparcial faz na nossa vida). Não que seja inteiramente assim, ele tem os diálogos que, inclusive, agregam falas maravilhosas, sempre reflexivas de alguma maneira: "Quando o dedo aponta para o céu, o idiota olha para o dedo!". "Então, minha querida Amélie, não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá buscar o pedaço do futuro que pode não conhecer".

A trama nos leva a diferentes lições, mas sempre exibe o quanto, por exemplo, um vaso, pode mudar todo o destino de alguém. Sim, um vaso. Um vaso diferente que aparece em uma vitrine pode acabar fazendo você sorrir para o estranho, o estranho pode perguntar seu nome, seu nome pode virar uma conversa, uma conversa pode virar um encontro, um encontro pode virar o encetar de uma relação, uma relação pode dar suporte no seu futuro emprego, seu futuro emprego pode definir seu legado, e por aí vai. Sim, é dessa forma que a obra é construída, mostrando consequências de um mínimo ponto que pode ser toda uma exclamação! Comprova o quanto tudo é teia e o quanto até os gostos mais fugazes, fazem parte da construção do nosso caráter.

O valor sentimental das pequenas coisas nunca devem ser subestimados: uma caixa pode fazer um homem sentir sua liberdade para novas escolhas. Apenas porque a caixa o faz reler a si. E é nesse tipo de raciocínio que a obra vai ganhando maravilhosas profundidades, contendo diversos elementos determinantes para a visualização do caráter e visão de mundo de uma pessoa.

A reflexão sobre a necessidade de ter como objetivos aquilo que tenha a ver com seus gostos, princípios e talentos, também surge implicitamente. E os ganhos através dos feitos pelo outro, como a consequência da evolução própria, ficam eternizados a cada segundo. Importante também é observar, nas minúcias, o quanto ninguém deve ser rotulado por apenas um tópico. Amélie é uma sonhadora, mas também sabe ter suas doses de realismo em equilíbrio para ajudar o próximo, assim como um estressado sabe também ser um romântico e então, nessa sequência, diversos lados são expostos, mostrando que não dá para julgar por completo sem convivência, e talvez nem mesmo assim.

É interessante assistir a evolução psicológica que a protagonista precisa passar para desafiar sua timidez e só então conseguir livrar-se da introversão para assim "correr riscos"; o que, no caso, significa revelar-se para o amado. Uma das partes mais bacanas é quando, no entanto, Amélie observa que não pode esquecer de si, que deve saber balancear sempre, se não as consequências, claramente, não vão invadir apenas uma bolha com ela dentro. Ela quase perde a chance de iniciar o seu primeiro romance com um sentimento sincero, quase perde diversos pontos que viram quases, justamente por procrastinar tanto. O filme não é uma comédia romântica (como citado em alguns locais), é muito mais, é sobre seres humanos, escolhas, consequências, renúncias e gratidão: que nos lembra o sempre acabo puxando de dentro para dentro, que viemos sozinhos para estarmos juntos.

É uma obra para navegar na psique humana e para olhar melhor para as árvores nas ruas. Para dar as mãos para quem precisa atravessar, ganhando com isso, provavelmente, uma consequência deleitosa para a vida inteira. É para lembrar dos pontos positivos dos negativos. É um filme para abraçar a si e lembrar que isso também requer um abraço ao próximo e àquele abajur esquecido que pode ter diversas utilidades. É para ir fundo, e lembrar que o fundo fica, principalmente, no canto do olho.

  • A Teoria de Tudo


Uma obra sobre lembrar da questão de que amor próprio, em um relacionamento, é também amar o outro, encaixá-lo nas prioridades, contanto que saiba balancear com as suas e observar qual é a mais urgente em determinados momentos (muito das mensagens de Um Dia está nele também). Um filme sobre autoconfiança, sobre a frase "não sabendo que era impossível, foi lá e fez", sobre lembrar da relatividade da verdade. Entre as mensagens maravilhosas do profissional Stephen, temos o enfoque das incríveis mensagens do relacionamento que o deu solo ainda mais fértil.

A trama é uma cinebiografia da vida de Stephen Hawking. O cientista genial que  viveu preso em um corpo enfraquecido por uma doença degenerativa, e comprovou o quanto nada é "totalmente". Uma das primeiras lições da história é: você nunca vai conseguir sozinho. Não, não é para desestimular, pelo contrário. É para mostrar a importância que os laços têm em tudo aquilo que está em seu potencial e vira palpável de alguma maneira. Hawking encontrou em sua primeira esposa, Jane Hawking, sua força. Uma história magnífica que apresenta uma perspectiva menos científica, mas não menos brilhante da vida de Stephen. Com amor, fé e determinação, uma mulher mudou a vida de seu marido. E quantas mensagens sobre lealdade surgem pelo caminho! É de suspirar e aplaudir a força de ambos.

O filme nos faz pensar em quantos heróis existem que nunca foram citados e fazem histórias todos os dias. Como até nós somos. A história dessa família nada convencional foi esclarecida nesse relato sincero e intimista da primeira e única Sra. Hawking. Jane (que gerou um livro, adaptado para essa arte cinematográfica), que fez o possível para salvar seu casamento, mas por deixar muito de si de lado, as consequências acabaram deteriorando tudo. Nem sempre o amor é o bastante, não quando ele nos tira de trilhos necessários. Ele pode ser um suporte incrível para que possamos ir até os nossos objetivos (como ela foi de base para o cientista), ou pode ser um veneno se abandonarmos as nossas próprias aspirações. O sonho do outro tem que ser também seu, contanto que o seu tenha espaço para respirar.

De início, é preciso entender que Jane se interessou por Stephen ciente de sua condição.  A ELA (a doença degenerativa que acomete o físico) foi diagnosticada no jovem ainda em sua adolescência. Tímido, porém inteligente, Stephen chamou atenção de Jane e os dois começaram a namorar. Entre a magia de uma paixão, que comprova a importância dos interiores acima de tudo, e de um primeiro amor sendo formado, com ainda, no meio, as ideias brilhantes do garoto, esse relacionamento evolui aos poucos e mesmo com um diagnostico cruel e nada otimista, Jane aceita se casar com Stephen. Porque há admiração, que sustenta o amor. Porque há amor, que recupera a paixão (quando ela já existiu em algum momento).

No livro, a autora diz que um casamento é integrado basicamente por duas pessoas, mas que no seu caso, sempre houve uma terceira integrante: a doença de Stephen. Conviver com os efeitos da degeneração foi, em especial, complicado para a esposa dedicada, que sempre cuidou do marido, assim como de seus filhos. Após um tempo, a genialidade do físico envolve uma quarta integrante à esse casamento já tão complexo: a física. As fórmulas e equações sempre atingiram um lugar que a esposa nunca conseguiu atingir em Hawking. Faltava, por vezes, a reciprocidade prioritária.

Jane recebe cada vez menos atenção do marido, que vai aos poucos ficando famoso e conquistando seu lugar no mundo. Diversas vezes, percebemos como ela se sente deslocada, inútil, ignorante e desprezada. A genialidade de Stephen a ofusca e ela abre mão de seus sonhos para se dedicar à família e à carreira do marido. Jane Hawking é uma verdadeira guerreira. Ela lutou pelos direitos dos deficientes físicos, por melhores condições, por suas crenças e por sua família. Muitas vezes injustiçada, ela se sentia exausta pela rotina profissional e doméstica, além do dever para com o marido, que foi elevado a outro patamar, quando ela se viu responsável por cada atividade de Stephen.

As divergencias entre ambos são tremendas e poderiam ser suportadas, talvez, se nas semelhanças coubesse mais preocupação, da parte dele, em libertar o bem-estar da amada, que tentava, por exemplo, colocar alguém em casa para dar suporte, para que ela pudesse viver melhor, buscar mais de si, enquanto ele não permitia.


Amor, superação e dedicação. É uma obra sobre o necessário para um relacionamento sobreviver. Jane não deve se arrepender do que abdicou, porque ao menos um sonho ela conquistou: o de amar direito, de não ferir os próprios princípios dentro do relacionamento e não permitir "e se...", ela foi até onde já não respirava, e soube ir embora no fim da esperança. Ela criou um legado na vida de alguém.

"(...) Eu estava convencida de que tinha de haver mais no céu e na terra do que havia na crua e impessoal filosofia de Stephen. Embora nessa fase eu me sentisse completamente enfeitiçada, atraída por seus olhos claros cinza-azulados e pelo largo sorriso de covinhas, resisti a seu ateísmo. Por instinto, eu sabia que não poderia me permitir sucumbir a essa influência negativa; que não poderia oferecer consolo nem conforto e esperança para a condição humana. O que o ateísmo faria seria destruir a nós dois. Eu precisava agarrar-me a qualquer fio de esperança que pudesse encontrar e manter a fé suficiente por nós dois se houvesse algo de bom em nossa triste condição." (p. 42 do livro)

Pode parecer clichê para quem muito carrega de bagagem sobre o amor, para quem discute e sabe bem sobre esses fatores, mas é uma construção tão básica quanto útil para refletir, ainda, sobre o quanto os nossos lados profissionais e pessoais estão (ou devem estar) sempre enlaçados!

  • Amor e Inocência


Mais uma obra com atuação maravilhosa da Anne Hathaway! "Amor e Inocência" ("Becoming Jane", no original) é um filme biográfico sobre a escritora inglesa Jane Austen. O filme tenta reproduzir um pouco da vida da escritora Jane Austen, e retrata o suposto romance de Jane com Thomas Lefroy, um advogado que fora obrigado por seu tio a ir passar um tempo com seus parentes. Apesar da má fama, Lefroy conquista Jane, quebrando preconceitos, e Jane o conquista com seu jeito diferente de ser e de pensar para a época, com sua determinação em buscar pelo pode dar vida ao seu coração e sentido maior aos seus sonhos próprios. O romance teria inspirado a obra "Orgulho e Preconceito", o mais renomado romance da autora, que aparece sendo ainda um rascunho no próprio filme.

Jane Austen (1775-1817) escreveu romances que viraram uma espécie de griffe cinematográfica de luxo e qualidade, nos últimos anos. "Razão e sensibilidade" e "Orgulho e preconceito" (como já dito), são os mais conhecidos. Mas ninguém nunca soube direito como viveu e o que pensava, e "Amor e inocência", realizado por Julian Jarrold em 2007, se ocupa em trazer um pouco sobre a mente da artista.

A personagem lembrou-me bastante a nossa protagonista de Outlander, o que adorei profundamente! E a obra também carrega mensagens bem próximas as da série, retratando uma mulher que nos lembra que é
 tudo questão de profundidade e de saber ter um olhar metafórico, aquele que não enxerga apenas o literal dos fatos. É mais peito com mente do que anos de vida. A maturidade depende mais de quem viveu a experiência do que a experiência de quem viveu. Se não tivéssemos pessoas como a Jane, não iríamos chegar na verdadeira concepção do que é respeito, igualdade, caráter e capacidades humanas (que independem de escolhas sexuais, classes, cores ou o que mais vier como carga mais externa desde o nascimento). E isso abre nossos olhos para pensar no futuro e fazer o que gostaríamos que levasse, de pouco a pouco, o nosso nome a ajudar em melhores alcances e reflexões sociais.

Experiência é vital para tudo, mas nada funciona sem imaginação, sem o principal tipo de inteligência (como citei ao falar do primeiro filme da lista). "A decência me obriga à ignorância". Mensagens do tipo são passadas através de diálogos simplesmente maravilhosos. "Para mim, ironia é um insulto disfarçado de sorrisos". Resposta da Jane: "Não". Juiz: "Não?". Prossegue em resposta: "Ironia é um confronto de verdades contraditórias, feito para a tentativa de alcançar uma nova verdade. O que entra em combate com a negação constante do ser humano em relação à relatividade das verdades".


Em diversos momentos dos seus desabafos nos papéis, tive imensa identificação com a autora. Mas Jane toma, mais à frente, uma decisão que não concordei em cem por cento. Sem ao menos tentar, ela desiste de algo por um raciocínio com sentido, mas precipitado, já que é previsão de futuro. Ao mesmo tempo em que, com isso, ela dá uma prova de amor, por buscar a preocupação com uma provável frustração do amado, ela também dá uma prova controvérsia de quem carregou um "talvez" para o resto da vida, deixando a mesma sensação para ele.


Esses filmes, ainda que representem uma Inglaterra em que ninguém de nossos tempos permissivos ficaria à vontade para viver, são bons como escapismo e fruição estética. Dão a ideia de um mundo fechado e coerente de ritos sociais, aspirações burguesas, lares regidos por um esquema de patriarcalismo rígido, amores proibidos, belas paisagens, etc. Agregando, acima de tudo, reflexão sobre o que já alcançamos e falta alcançar. Sobre críticas atuais, sobre o que permanece, infelizmente, de desigualdade e injustiça.

O que faltou, para mim, no filme, foi mais intensidade. Não pelas atuações, mas pelo roteiro. Faltou cenas que nos encaixassem melhor no romance e na mente dos personagens, já que tirando a Jane (e, às vezes, até a incluindo), todos parecem muito distantes internamente do nosso toque e mergulho. Não dá para sentir, sequer, que o casal realmente construiu amor, que chegou em algum grau alto de intimidade, que aprofundou no universo interno um do outro, misturando gotas de rio e mar. O que parece é apenas uma paixão, um encanto avassalador, que nem mesmo mostra sua força total nas cenas. Não cativa, não marca. Mas isso não faz com que deixe de valer cada reflexão: sobre o que é feito como melhor e pior, sobre atitudes precipitadas, sobre cada diálogo maravilhoso e sobre personalidades como Austen, que entre a maturidade e o sentir, esqueceu um pouco que ambos devem andar juntos e arriscar, que deixou de conhecer parte do próprio futuro, mas que liberou, como faria de qualquer maneira, um legado maravilhoso como ser humano, por tantas outras conquistas de peso, por não deixar de lado as próprias convicções. Por ser mais justiça do que cultura. Por ser mais objetivo do que conforto. Por nos ajudar, com seus próprios erros e acertos, a rever os nossos. Por nos lembrar que a "moralidade" de uma época nem sempre significa bom caráter, já que ser bom é seguir o que gostaria que seguissem por você. Por mostrar que hoje, ainda falta muitas quebras de padrões sociais. E por me fazer, agora, deixar aqui novamente a postagem recomendando autoras para lermos mais.

E então, já assistiu algum dos filmes? O que achou? Qual dos que ainda não viu mais causaram curiosidade para você? O que acrescentaria nas reflexões principais que citei? Não deixe de contar aqui nos comentários!


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