THE BATMAN (2022) | CRÍTICA SEM SPOILERS: ROBERT PATTINSON ACERTA, MAS ROTEIRO ERRA

quarta-feira, março 02, 2022


Uma história sem grandes decisões nunca será uma grande história. É justamente neste aspecto em que The Batman peca. O protagonista não toma nenhuma decisão difícil, falta clímax. O novo longa do herói pode ter as melhores atuações e uma direção impecável, mas se o roteiro não acompanha a giganteza de todo o resto, todo o trabalho se perde e não há como recuperar.

A BASE QUE TINHA TUDO PARA SER MELHOR:


No filme, que trouxe Robert Pattinson na pele do Homem-Morcego, um assassino atinge a elite de Gotham com intenções sádicas e pistas enigmáticas. É então que podemos visualizar o lado detetive do Batman ser aguçado, enquanto ele encontra personagens como Selina Kyle/Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot/Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton/Charada (Paul Dano).

Conforme as evidências começam a chegar mais perto de casa e a escala dos planos do perpetrador se torna clara, Batman deve forjar novos relacionamentos, desmascarar o culpado e fazer justiça ao abuso de poder e à corrupção que há muito tempo assola Gotham City.

Em meio ao cenário obscuro, enxergamos um protagonista com o amadurecimento e a essência em construção. Ainda pouco renomado na própria cidade (em "início de carreira"), o herói precisa lutar também contra as piadas que fazem sobre ele e contra a própria raiva descontrolada, que ainda o persegue em tantos momentos.

Mas é justamente por todos esses aspectos que podemos também ter minutos preciosos, com um Batman repleto de camadas e cheio de humanização. Ele se enxerga em um menino que também perdeu os pais, ele se vê nas pessoas perdidas e ele se preocupa com o legado que está começando a desenhar enquanto busca o autoconhecimento.

Não é estranho, portanto, que a obra seja muito mais focada nos diálogos e em análises do passado do que em questões do presente do personagem. Porém, o problema acontece quando este foco vira excesso e o filme fica tão conectado a falar do ontem (sem flashbacks!) que esquece de desenrolar a trama no momento em que ela está se desenrolando. 

Acontece que basicamente todas as motivações dos indivíduos em The Batman são relacionadas ao que aconteceu anos antes com aqueles personagens – e não com alguma cena que o público chega a visualizar e sentir. Assim, o próprio protagonista fica tão vidrado em desvendar questões do ontem, que não chega a tomar nenhuma grande atitude no agora. 

O centro das atenções fica em esclarecer charadas, sem que dê sequer tempo do público tentar ou querer descobrir algo em conjunto. Rapidamente o Batman resolve qualquer pergunta, sem que as surpresas possam realmente pegar qualquer telespectador (e aqui vale também criticar a tradução do longa, que fez com que muitas charadas perdessem a graça ou, até, o sentido no português). As quase 3h de duração passam a se tornar arrastadas e entediantes quando é percebido que nada está sendo construído de fato, é tudo sobre o que já aconteceu e não sobre o que está para acontecer.

AS LIÇÕES E AS ENTRELINHAS:


Até em um romance água com açúcar, a decisão do rapaz em ir atrás da moça em um aeroporto é o que gera frio na barriga. Aquela decisão difícil, que foi tomada por conta de tudo o que vimos e sentimos, é o que nos move a querer bater palmas. E isso é perdido no roteiro de The Batman. Não há nenhum grande feito, nenhuma grande abdicação... e só lá para o final é que uma pontadinha desses detalhes começam a surgir.

Nem o protagonista e nem mesmo a população ou o resto do elenco toma alguma atitude maior, gerando qualquer clímax. Dá saudade do Coringa de Heath Ledger, que ao menos fazia com que a sociedade ficasse encurralada, forçando a todos a imensas decisões: como a de matar ou não uns aos outros em prol das próprias vidas.

Então, mesmo com críticas políticas interessantes, com reflexões sobre não comparar as dores de pessoas diferentes e com um Batman ainda mais complexo... o roteiro, em The Batman, esqueceu de também se aprofundar e, por ficar no passado e no raso, acaba jogando fora o potencial de toda a direção e atuação que atingiu.

O longa tem, sim, alguns pontos fortes também nas entrelinhas da roteirização. Temos as reflexões sobre poder escancaradas em cenas importantes, como aquela em que o Bruce ganha portas abertas por ser um milionário, enquanto o Batman, por não ter ainda status, é ignora por tantos.

Temos a noção de que mesmo em meio a corrupções, sempre existem as pessoas de boa índole – o que exemplifica que algo ser comum não significa que deva ser dado como normal. 

Mas nada disso salva o longa em sua totalidade.

AS ATUAÇÕES BRILHANTES:


Matt Reeves, portanto, brilhou como diretor, mas se apagou como roteirista (ele, que foi também diretor de Planeta dos Macacos: O Confronto, o qual muito aplaudo). E todo o problema morou nesse único e enorme fator, já que Pattinson facilmente superou expectativas e mostrou o melhor Batman de toda a história do cinema.

Enquanto ele se torna mais seguro de si e firme ao vestir o seu traje, temos também um Bruce ainda muito confuso e mais humano quando a roupa preta sai de cena. É importante entender a jogada entre essas duas camadas do personagem, que acaba se tornando ainda mais completo e genial com a interpretação de Robert, (e)levando o lado do "homem com dúvidas, em desenvolvimento/esclarecimento" e o ângulo do herói com certezas em ação. 

O ar misterioso se mistura com a clareza de um garoto que só deseja fazer o melhor e descobrir mais de si. E, assim, temos o Batman em sua forma mais transparente, emotiva e real, como nunca visto antes. Talvez, aqui, tenha sido a primeira vez em que o público pôde sentir que realmente conheceu o Bruce.

O olhar perdido sem a roupa e o olhar assertivo quando está com ela, brincam entre si. Batinson não perdeu um detalhe e entregou cada minúcia, sendo expressivo até quando precisava se mostrar desnorteado. Em resumo: ele trouxe uma profundidade que nenhum outro ator conseguiu colocar no papel.

Zoë Kravitz, como Mulher-Gato, também fez a sua estrela brilhar. Para muito além da sensacional tensão sexual que acendeu com Robert, ela também trouxe em tela a força que está na vulnerabilidade e na riqueza de personalidade da sua personagem.

O FINAL QUE ANIMA, MAS NÃO RESOLVE:


Em termos de melhores filmes do Batman, talvez The Batman fique atrás apenas da trilogia do Cavaleiro das Trevas, mas o problema é que a diferença é grande, já que o roteiro, na sequência antiga, faz valer.

Ainda assim, o filme consegue animar com o que está por vir nos próximos da nova franquia. O final deixa o frio na barriga e a vontade de gritar (o que fica em falta em todos os outros momentos). Bastava um pouco mais disso, de clímax, e de grandes escolhas feitas pelos personagens e: voilà! Teríamos, enfim, algo sensacional.

A expectativa para a continuação não supre os problemas de The Batman, mas já deixa claro que as atuações superaram o impensado e conseguiram, até, fazer os olhos brilharem para o futuro da trama.

NOTA: 3 (DE 5) | Sendo nota máxima para atuações e direção.

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1 COMENTÁRIOS

  1. Oi Vanessa, eu não acompanho esse universo dos super-heróis, por isso não assistirei o filme ~ mas adorei ler a sua resenha, sempre levantando pontos importantes e chamando atenção para temas que muitas vezes não percebemos de cara. Um beijo querida :*

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