O QUE ASSISTIR NOS CINEMAS EM OUTUBRO

quinta-feira, outubro 13, 2016


Enquanto diversos dos filmes analisados em "O que assistir nos cinemas em setembro" ainda estão passando nas telonas, um novo mês surge carregando variadas novidades com interessantes pesos reflexivos. Muitas críticas sociais e políticas estão marcando presença em entrelinhas, enquanto não ficam de fora em outras bases as mensagens sobre autoconhecimento e relacionamentos mais íntimos de diversos teores. Também ficam em destaque as tantas cinebiografias motivacionais e muitas das obras literárias adaptadas para as entrelinhas extras. Confira abaixo as análises das reflexões que podem ser esperadas a partir dos pilares de múltiplos dos longas. Lembrando que os títulos não estão em ordens de "possíveis favoritos".

  • Inferno (Lançamento: 13 de outubro / Obra original escrita por Dan Brown)

Em "O Código Da Vinci", Dan Brown engloba, nas entrelinhas, críticas sobre religião e imposições criadas que causam desrespeitos e falta de liberdade de expressão para autoconhecimento e, até, suportes úteis para outros. Com as quebras de paradigmas lançadas, que tornam Jesus como "mais humano", as ideias da obra acabam por desmistificar os prazeres como pecados (diminuindo a carga do tema "sexo" como tabu, já que, afinal, prazeres só são negativos quando postos acima de prioridades do caráter, afetando a liberdade e a justiça para outros). A estória acaba, portanto, mostrando que o único 'pecado real' seria o de fazer mal a outros, cometendo o que jamais gostaria que consigo fosse feito. Ou seja, tudo alarga a premissa básica do que seria o desrespeito.

Na nova trama do autor, também adaptada para o cinema, discussões críticas prosseguem sendo destrinchadas. Em "Inferno", o renomado professor de simbologia de Harvard, Robert Langdon (Tom Hanks) visita a Itália e se envolve em mais uma aventura envolvendo símbolos ocultos e corporações secretas. Ele se vê em uma jornada em que procura desvendar os mistérios do clássico da literatura "O Inferno", que é a primeira parte de "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. A missão do professor envolve além dos poemas, obras de arte e espaços públicos renomados.

Dan Brown retoma a mistura magistral de história, arte, códigos e símbolos que o consagrou em "O Código Da Vinci", "Anjos e Demônios" e "O Símbolo Perdido" e faz de "Inferno" uma carga diferenciada, ainda que com fórmulas semelhantes nos pilares. Numa corrida contra o tempo, o protagonista enfrenta um enigma engenhoso que o leva para uma clássica paisagem de arte, passagens secretas e ciência futurística. Na caçada frenética, o professor desdobra diversas analogias para encontrar respostas e decidir em quem confiar, antes que o mundo que conhecemos seja destruído. Todos os pontos acabam sendo propostas poéticas para criticas algo da atualidade, indo desde as corrupções políticas até as descrenças sociais que levam os desvendares necessários a tardamentos.

As reflexões abordadas, no entanto, já não têm a ver com as temáticas de enfoques anteriores. "Inferno" vai tratar do nosso papel individual e coletivo perante futuro da existência da nossa própria espécie. O autor se volta agora para temas ligados à tecnologia, ciência e medicina (retomando um pouco o que se via nos seus livros "Ponto de Impacto" e "Fortaleza Digital").

Os lugares mais sombrios do Inferno são reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral, que é o maior núcleo das discussões propostas. O autor traz críticas sobre a superpopulação mundial, mas o ponto trazido é agregado, claramente, com intenção de abrir olhos não exatamente para o crescimento populacional desenfreado, mas para os entornos de como estamos cuidando de tantas vidas e da nossa (desgastando a natureza, os recursos; enfraquecendo caráter, entre outros fatores), esquecendo que: "A minha liberdade não acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro" (Cortella).

Visando esta breve síntese, o que mais toca em "Inferno" são as reflexões proporcionadas acerca do futuro da humanidade: os caminhos que estamos tomando de formas impulsivas e a escassez de recursos a suportar esta bomba-relógio, a negação e a conveniência nossa e de nossos representantes em não atentar a este quadro (deixando de lado o amanhã das próximas gerações), bem como a ineficácia dos meios atualmente empregados a conter quaisquer pandemias.

  • Gleason (Lançamento: 27 de outubro / Roteiro por J. Clay Tweel)

Trailer sem legenda. O filme, feito com estilos próximos aos de um documentário, conta a verídica história de Steve Gleason, jogador da NFL e herói em Nova Orleans, que aos 34 anos de idade, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, uma doença neuro degenerativa. Os médicos lhe deram de dois a cinco anos de vida. Sem de deixar abater, Steve escolheu viver com o propósito de aproveitar o tempo com sua esposa e seu filho recém-nascido, além de ajudar outros que sofrem da mesma doença.

Além dos impactos motivacionais gerados a partir das bases já propostas e que podem servir como metáforas para quaisquer momentos dificultosos de diferentes vivências, o longa ainda deixa promessas que enfocam em mensagens sobre caráter, fatores basilares para um relacionamento saudável e reais noções do que é ser livre, captando muito do trecho da crônica "Para os que limpam as listas": "(...) Infantil é a criança que não sabe o brinquedo que deseja, que quer tudo ao mesmo tempo, que não pretende abdicar. É o ser que se vê como esperto por não ter no que segurar. É o miúdo que tenta tornar a dupla personalidade um tesouro, que machuca o outro e faz bico, que quer espatifar os móveis e diz que o castigo dado é uma perda de tempo para os pais. Abrir mão pelas próprias doutrinas é maduro, gigante, honesto; significa que experienciou o suficiente para conhecer os limites necessários, para discernir, para fazer jus ao que perpetua não tolerar e, portanto, não cometer(...)". Muitos teores das lições encontradas no filme "A Teoria de Tudo" (veja a análise aqui) podem também ficar em entrelinhas na trama, trazendo demais angulações e diferentes enriquecimentos em conjunto com os já vistos no referido longa.

Mensagens que alargam noções como as emitidas em textos como "O amor é elegante", deixam também itens em juras. Conexões firmes para com o documentário "I Am" não podem ser desmemoriadas. "Gleason" mescla pontos fundamentais sobre o amor, os laços humanos, a vida profissional em somas com a vida pessoal; sobre lidar com prioridades de formas justas e sinceras e deixa a prenuncia de ir ainda mais afundo e para demais direções que acabam sendo inclusas em uma: a força da moral enquanto respeito.

  • O Mestre dos Gênios (Lançamento: 20 de outubro / Roteiro por John Logan e Andrew Scott Berg)

Cinebiografia de Max Perkins, um dos editores literários mais famosos do mundo. Apostando em jovens talentos, ele descobriu grandes nomes da literatura como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe. O filme acompanha a vida pessoal de Perkins e sua relação complicada com os escritores, cujas obras foram fortemente influenciadas pelo contato com o editor.

A trama agrega discussões profundas sobre bom-caratismo, vícios como o alcoolismo, relacionamentos que são defasados por mentiras cultivadas (afinal, a deslealdade é sempre o pior erro e o caminho para que se perca quaisquer possíveis razões), noções fundamentais sobre prioridades e equilíbrios entre elas sabendo quais deve renunciar e quais não deve sequer incluir – fazendo jus ao "não merece o fundamental quem não sabe abrir mão do trivial"  e, assim, a partir de cada um dos quesitos, o filme deixa as juras de apresentar os enlaces que todas essas escolhas (e suas consequentes renúncias e perdas) têm com os impactos nos talentos e em todos os outros âmbitos de vida. Logo, o longa alargará a ideia de que a desonestidade em um lado sempre afeta, de alguma forma, todos os outros.

Um trecho que já foi, inclusive, citado em uma das análises prévias deste ano por aqui, aparenta surgir também na referida trama: "Viver intensamente não é sair por aí "não ligando". É ir podendo voltar. É lembrar que o mundo é gigante! Mas só para quem pode voar sabendo que tem ninho de aterrissagem. Só para quem se preocupa em escolher, abdicar do trivial, manter promessas. Porque para os maus, para os desrespeitosos e mentirosos, analise, o mundo é pequeno".

Um fator, no entanto, que descobri e que discordo, é que uma das frases do filme afirma o seguinte: "As únicas ideias que valem a pena passar para o papel são as grandes". O que seria, afinal, "uma grande ideia"? Todos os sentimentos, todas as verdades, todas as emoções, todos os desabafos, tudo o que é arte, é uma grande ideia; é um encaminhamento para releituras internas e evoluções de diversos níveis. Não é correto reprimir o que colocaria no papel apenas por julgar ser 'pequeno', já que pode ser, justamente, uma porta para salvar tantas mentes e corações em determinados momentos. Logo, discordo e ajusto: "As únicas ideias que valem a pena passar para o papel, são todas. Afinal, uma grande ideia depende do olhar e sempre estará presente em uma menor, que para tantos será a gigantesca. É tudo questão da pupila de quem vê e de uma semente não ignorada. Nunca subestime o poder de uma singeleza e, muito menos, de uma urgência interior".

Dica extra: Ao observar este lançamento do mês, lembrei de um filme do Matthew Perry que estou desejando assistir há um tempo. A obra é "O Triunfo". Fica a indicação para que entre em outras listas de pendências. A premissa é bem bacana e caso contenha boas reflexões e entrelinhas, teremos resenha futuramente.

  • A Garota do Trem (Lançamento: 27 de outubro / Obra original escrita por Paula Hawkins

Todas as manhãs Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas d'água, pontes e aconchegantes casas. Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes, os quais chama de Jess e Jason, Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida do jovem casal. Tudo seria maravilhoso, até ela testemunhar uma cena chocante, segundos antes do trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess é, na verdade, Megan e está desaparecida. Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. Rachel acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos.

Ainda não devorei o livro e/ou busquei spoilers que pudessem trazer noções maiores, porém que, consequentemente, quebrariam as emoções de conhecer os detalhamentos da trama. Obviamente, portanto, os aprofundamentos de uma análise prévia estarão mais rasteiros. Pelo pouco que pude saber e observar, podem ser constatadas visões básicas que torcem para que a estória contenha boas lições nas entrelinhas do suspense. Claramente, uma das reflexões mais singelas será sobre as consequências e erroneidades dos preconceitos, dos julgamentos sem aprofundamentos, sem estudos, sem proximidades. A quebra básica da frase "não, a grama do vizinho não é mais verde", permeará. Ficará a ideia de que todos carregam as suas cruzes, lacunas a serem preenchidas e suportes que poderiam salvar pedaços de cada um de nós. Clichê? Depende da fórmula de transmissão que, pelo visto, abraçará outras temáticas de suma importância.

Problemas que trazem mensagens sobre vícios negativos que podem servir de simbologias, estarão na trama. Como é o caso do alcoolismo apresentado, que pode ser visto como representação de um trabalho que traz mais pontos negativos do que positivos, que não supre os lados degradantes e assim por diante. Ou seja, a frase "Só leia a história enquanto sentir que pode escrevê-la", ganhará desenlaces no decorrer.

É possível depreender que a autora usa de acontecimentos corriqueiros, casuais e de certo modo até costumeiros na sociedade, como brigas familiares, depressão, solidão, ciúme, inveja, dentre outros, para construir uma narrativa repleta de alertas sociais e pessoais que fazem da obra uma caixa não rasa.

Reflexões sobre relacionamentos abusivos (que envolvem a cultura do estupro, mas vão muito além dos pontos literais da palavra, agregando limites que 'o outro' não aceita para si, mas quer impor e afins), importância do feminismo e da quebra de orgulhos e temores para ajudar o próximo, serão contempladas. Esperemos que a obra contenha diversos alcances em somas e que faça, ao menos, jus ao poema "Equilíbrio" (do "Entre Chaves"): "Quem é teu remédio e tua doença? Quem é tua fé e tua descrença? Quem é tua asa e teu cadeado? Quem é teu fim e teu inacabado? Quem é tua resposta e tua indagação? Quem é tua verdade e tua ilusão? Quem tu tanto mata e continua de pés? Seja quem for, na balança: tu és."

  • Humano  Uma Viagem Pela Vida (Lançamento: 06 de outubro / Dirigido por Yann Arthus-Bertrand)

Mais de 2 mil entrevistas em 60 países dão vida ao documentário "Humano  Uma Viagem Pela Vida" que reflete âmagos dentre desejos coletivos e pessoais, não captando seres apenas como indivíduos críticos, mas como sociedade analítica. Pessoas comuns falam espontaneamente o que pensam sobre amor, morte, ódio, discriminação, desigualdade, fome, esperança, natureza, sexo, entre outros temas. São camponeses, trabalhadores fabris, sentenciados a pena de morte, aborígenes, refugiados, soldados e outros. Genuínas e emocionantes histórias de vida que ainda aproveitam para deixar exposições íntimas de vivências e olhares ímpares.

Com testemunhos e imagens aéreas exclusivas, o introspectivo documentário capta guerras, momentos dentre absurdos e suportes humanitários no cotidiano, confrontando a realidade que contempla discursos de solidariedade e não costuma os pôr em prática de tal maneira. Uma reflexão sobre o presente, resquícios do passado e, principalmente, sobre o futuro que queremos para nós, seres humanos, e o planeta.

Algumas críticas já firmadas chegaram a declarar que o filme não alimenta nenhuma reflexões singulares, com teores de propostas para melhorias e pontos de evolutividade em relação aos problemas principais que marcam as sociedades (conflitos religiosos, étnicos, políticos, geoestratégicos e outros). Mas é possível que tais detalhamentos estejam nas entrelinhas, nas emoções emitidas de uma alegação lançada em uma frase, na forma com que o tremor ocorre ao citar uma temática, na maneira com que um olhar fica arregalado ao falar sobre uma experiência e nos trejeitos e palavras a mais que já carregam em si as possíveis e necessárias transformações. Afinal,
o mais fundo fica na superfície e o mais clichê pode estar na máscara de um vocabulário extenso que dita o já maçante.

  • A Nona Vida de Louis Drax (Lançamento: 20 de outubro / Obra original escrita por Liz Jensen)

Louis Drax, de nove anos, é um menino "precoce", matreiro e visto como perigoso. Todo ano, algo terrivelmente violento acontece com ele. Sua mãe vive em pânico. Louis está sempre no limiar entre a vida e a morte. Quando ele cai de um penhasco num desfiladeiro, o acidente parece quase predestinado. O menino sobrevive, miraculosamente — mas a família é destroçada. Louis entra num estado de coma profundo, do qual talvez nunca mais saia. Somente Louis detém a chave do mistério que cerca sua queda — e não consegue comunicar-se. Ou será que consegue?

"A Nona Vida de Louis Drax" é da jornalista e escritora Liz Jensen, e conta tal estória que permeia a vida do garoto de 9 anos que, além de tudo, sofre bullyng na escola. Louis tem uma relação misteriosa com sua mãe, Nathalie Drax, e leva uma rotina aparentemente normal com o pai, que preocupado com o futuro do filho o envia aos cuidados do psicólogo Marcel Perez, que o identifica inicialmente com Complexo de Édipo.

Este tipo de comportamento ocorre, segundo Freud, quando a criança atinge o período sexual fálico na segunda infância; Dá-se então conta da diferença dos sexos, tendendo a fixar a sua atenção libidinosa nas pessoas do sexo oposto, no ambiente familiar. No caso do menino Louis, preferência pela mãe.

Uma obra que aprofunda as divergências sobre o estado do coma, aborda a psique humana com seus complexos e síndromes, como por exemplo Munchausen, um transtorno em que os indivíduos fingem ou causam a si mesmos doenças ou traumas psicológicos para chamar a atenção ou simpatia de outras pessoas.

O longa carrega a quebra de preconceitos perante "tipos" de mentes, julgadas pelas idades, classes sociais e/ou outros preceitos que acabam distorcendo noções e causando bloqueios absurdos, já que nada define mais uma mente do que as cargas conjuntas daquela vida e índole. A intensidade de uma pessoa e a forma como ela aglomera as experiências, por menores que tenham sido, não chegam com determinação de faixa etária ou quaisquer pontos soltos, e é até um clichê de ser dito. A experiência depende muito mais de quem a viveu, de como a sentiu e como resolveu a enxergar após do que dela mesma. A criança não é incapaz ou rasa apenas por estar preenchendo os seus baús. O filme abre portas para o alerta da não subestimação e de tantos outros quesitos psicológicos e científicos para que sejam debruçadas novas teses e compreensões. E para onde mais as críticas irão? A espera é de que para demais quebras que afirmem que: "Não é a rotina que destrói as coisas. É a falta de curiosidade" (Carpinejar).

  • O Contador (Lançamento: 20 de outubro / Roteiro por Bill Dubuque)


Christian Wolff (Ben Affleck) é um portador da Síndrome de Savant com mais afinidade por números do que por pessoas. Tendo um escritório de contabilidade em uma cidade pequena como fachada, ele trabalha como contador autônomo para algumas das mais perigosas organizações criminosas do mundo.

Com o Departamento Criminal do Ministério da Fazenda, coordenado por Ray King (J.K. Simmons), começando a fechar o cerco, Christian aceita um cliente legítimo: uma empresa de robótica de última geração onde uma assistente de contabilidade (Anna Kendrick) descobre uma discrepância envolvendo milhões de dólares. Porém, conforme Christian desvenda os registros e se aproxima da verdade, a contagem de corpos começa a subir.

Um ato cometido sempre irá para além do é imaginado e pode mudar drasticamente uma vida, ainda que sendo "totalmente alheia" aos fatos. São reflexões assim que prometem ganhar encaixes nas entrelinhas de "O Contador". Christian Wolff foi criado pelo seu pai com rigidez, para que o seu autismo não fosse "algo que atrapalhasse". E então, mais uma mensagem embutida surge. Afinal, o diferente atrapalha mais quando sendo tratado como errado ou quando é visto como um tesouro a ser lido e libertado? Ainda que uma diferença seja perigosa, o maior erro humano é tratar como fator de extermínio o que deveria ser fator de aprendizagem e evolução. A leitura e a releitura cortada por encaixes em "padrões sociais" são os emburrecimentos que alargamos e que impactam em tantos erros repetidos. Ao tentar tornar algo igual ao costumeiro ou ao desejado, quebramos as chances da nossa própria capacidade de pregresso e de tantos outros.

O pai de Wolff toma tais atitudes pensando nos riscos que o autismo da criança poderia causar, deixando o menino frágil perante a sociedade. Mas não o ensina a ser forte através das aceitações e compreensões do próprio interior, mas sim em esforços para que seu filho busque respostas apenas em proximidades ao que já é "imposto socialmente". Buscando "uma forma de viver normalmente a vida" e aprender a se defender das dificuldades através dessas lições emitidas pelo pai, o garoto cresce em meio a essas tantas aspas e perde o caminho da própria essência que tentará reconectar em si.

Então, lá está o protagonista, uma criança com talentos e singularidades belíssimas (como todos têm e são, tantas vezes, impedidos de alargar por conta desses bloqueios sociais que não impulsionam o "fora da caixa"), com dificuldade em ter contato físico com as pessoas e vivendo sem compreensões alheias. A sensibilidade do menino que tem que cantar uma canção para se acalmar (A canção de Solomon Grundy), mas que mostra uma genialidade explosiva ao montar um quebra-cabeça, vai sendo destrinchada e resguardada ao longo dos anos.

A trama deixa, portanto, juras diversas perante quesitos psicológicos a serem aprofundados, mas, principalmente, deixa em metáforas críticas sociais densas sobre algumas das maiores discussões da atualidade: a tese básica de que só existe igualdade quando existe o respeito ao diferente e o suporte alheio para que os possíveis pontos positivos em cada singularidade, possam ser exercitados e experimentados. Quebras de paradigmas sobre padrões sociais, temores que impedem conhecimentos e afins, ficam, de tal forma, em cada sequência. Fechamos as visões prévias então com um trecho do "Entre Chaves": "Quantas coisas deixamos de encontrar por medo de nos perder? A rosa que vos espera pode exalar perfume que sobressai os espinhos. Quantas vezes esquecemos que crer também é descrer? E ainda assim, por temor da sorte, cortamos caminhos. É que tu fechas as portas, as janelas, pedes vento, inda choras. Enquanto a brisa chega em ti, e tu nem vês, tu só imploras".

  • Nosso Fiel Traidor (Lançamento: 06 de outubro / Obra original escrita por John Le Carré)

Durante um feriado no Marrocos, o casal Perry e Gail conhece o extravagante e carismático Dima, que faz parte da máfia russa. Quando Dima pede ajuda a eles para levar uma informação para o Serviço Secreto Britânico, Perry e Gail entram em um caso arriscado sem saberem dos perigos que circundam o universo da espionagem internacional.

O casal da trama está passando por uma fase abalada, em que a confiança foi destruída e uma segunda chance está ocorrendo como tentativa. Algumas críticas afirmam que as questões do relacionamento, no entanto, não são aprofundadas como poderiam e que as reflexões possivelmente adentradas (sobre lealdade e afins), acabam ficando em um "plano de fundo" que, mais do implícito, torna-se escasso. Mas, como sempre, façamos questão de conferir a trama antes de abraçar quaisquer julgamentos que podem não ter alcançado certas entrelinhas e/ou minúcias a mais.

O protagonista encontra na esposa e nos filhos de Dima uma tradução daquilo que sente faltar na própria vida, algo que ainda não foi capaz de construir, mas que acredita ser seu dever defender. A família é o elemento que move o longa de White que, até no clímax, deixa a ação e a violência fora de quadro, direcionando seu olhar para a imagem da proteção do grupo familiar. Dentro desses pontos, então, é possível visar mensagens densas do instinto de cooperativismo e da importância da gentileza, como vistos nos detalhamentos do filme "O Impossível" e, mais uma vez, do documentário "I Am".

Mesmo Hector (Damian Lewis), agente do MI6 encarregado do caso, tem suas próprias questões envolvendo um filho para resolver. Ewan McGregor faz o papel do homem honrado e de princípios, como os tipos consagrados por James Stewart. Esse senso de integridade moral também é encontrado na Gail de Naomie Harris, uma promotora pública, símbolo de justiça.

Além dos pontos mais pessoais inclusos em cada personagem, a base da trama não deve deixar de emitir questões críticas de peso. "Nosso Fiel Traidor" é um filme sobre a máfia russa que acaba refletindo sobre o universo corruptivo da política e da sociedade mundial em seus esquemas circulares. A máfia acaba sendo linha de enlace para tantas das temáticas adentradas nesses desenrolares.

Apesar dos pontos visados como positivos no longa, o filme pode, no entanto, acabar tendenciando para construir a visão de "um lado mais humano" do mafioso que acabe diminuindo os absurdos por ele cometidos. É importante ratificar a tentativa da Ética Universal, do respeito acima de tudo (principalmente perante o direito de viver de cada um) e da clareza de que outros seres humanos acabam conectados sentimentalmente com pessoas que são também as que colocam tantas vidas em risco. Se um lado não deleta o outro e um certo balanceamento é feito, firmando os possíveis limites básicos, então a justiça maior pode ser entendida.

  • 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição (Lançamento: 06 de outubro / Roteiro por James DeMonaco)

O policial Barnes (Frank Grillo) agora é o principal responsável pela segurança da senadora Charlene Roan (Elizabeth Mitchell), que planeja acabar de uma vez por todas as noites em que o crime é liberado/engrandecido de alguma maneira. Em plena época de eleições, ela é uma das melhores posicionadas nas pesquisas e nova inimiga número um dos criminosos, que se armam para eliminá-la de qualquer jeito.

Se o primeiro filme do seguimento partia do microcosmo de uma família rica tentando sobreviver a uma invasão em casa, ambas as sequências expandem a ideia e suas consequências, indo para as ruas e explorando como o Expurgo (que representa, acima de tudo, a violência em geral do cotidiano que busca ser posta, erroneamente, como lugar de "justiça") se consolida apenas como mais uma maneira ruinosa de promover uma limpeza social no país. Entrelinhas críticas diversas perante os absurdos que costumam estar presentes no dia a dia, são alargadas. Exemplo: morrem os pobres e desfavorecidos enquanto os ricos, em geral, sobrevivem pelo simples fato de disporem de recursos o suficiente para garantirem sua segurança. E isso acaba sendo empregado como meio para discutir não somente a morte, a violência e pontos mais diretos  que, cada vez mais, alcançam a todos horrivelmente e sem distinções , mas também a justiça em geral. Quem vai para a cadeira é, de fato, o criminoso ou nem sempre paga a culpa quem a teve? Por que isso ocorre? Quantas corrupções ficam inclusas? As leis, que nem sempre são as mais justas, são dirigidas com igualdade? O de renome e condições financeiras maiores permanece em mesmo grau de punição para um mesmo crime? São diversas indagações a serem alimentadas de maneiras instigantes e acumulatórias.

Não que o longa de DeMonaco embarque em todas as camadas que sua proposta sugeriria desencadear, mas, para o contexto da franquia, até aparenta fazer boas discussões sociais. Paradoxalmente, ao fazer sua crítica à violência e ao sistema de castas, DeMonaco faz uso da própria violência com fins de catarse, criticando vingança enquanto a apresenta em angulações variadas. O longa, no entanto, faz o papel de desconstruir pontos possivelmente positivos vindo dessas linhas. O filme traz teores denunciativos em simbologias interessantes; o caso nas ruas nunca tem caos suficiente e a população desvairada, pelo visto, nunca parece suficientemente populada. Não há como saciar a sede se o copo não contém, de fato, líquido. E assim chega mais um caso para ratificar a frase: "Os fracos se vingam. Os fortes se protegem" (Cury).

Paralelo ao conflito político da senadora há a busca pela sobrevivência de Joe e Marcos, negro e mexicano, respectivamente, homens que precisam lutar pela sobrevivência e pela manutenção de seu estabelecimento comercial perante os criminosos e assassinos que saciam os seus "instintos de violência" durante o período do Expurgo. Detalhes assim acabam encontrando histórias paralelas que atuam em uniões para o sucesso reflexivo da trama.

Em "Uma Noite de Crime", primeiro momento da franquia, o expurgo é estabelecido e os acontecimentos gravitam em torno de um representante comercial que trabalha numa empresa de segurança. Na noite programada para o ato de liberação geral dos roubos e assassinatos sem penalização, numa tentativa de diminuir a criminalidade durante todo o ano, o profissional ironicamente tem a sua residência ameaçada. Em "Uma Noite de Crime – Anarquia", o ritmo continua impactante, com alguns poucos deslizes, numa trama que acompanha três histórias paralelas sobre pessoas comuns tentando sobreviver ao expurgo.

Híbrido entre gêneros e estilos, o filme de então parece mais preocupado em deflagrar o caos estabelecido não somente pela guerra civil no dia do expurgo, mas em cada dia "comum" em que isso ocorre por liberações indiretas dadas a partir do descaso de partes da sociedade para com outras. A ideia de base é trazer críticas sobre corrupções e afins e, principalmente, elevar o abrir de olhos para a questão de que acabamos, de alguma maneira, contribuindo para essas explosões. A violência, tema criticado no filme, por sua vez, ganha contornos metalinguísticos. James DeMonaco fala sobre o assunto, mas também o utiliza como elemento estético, apresentado de maneira bastante gráfica para causar no espectador, juntamente com a catarse de ordem psicológica, a repulsão física, causando o reparar de que o melhor caminho é aquele que tenta soluções para não chegar ao tal proposto.

  • Noite de Verão em Barcelona (Lançamento: 13 de outubro / Roteiro por Daniel González, Eric Navarro e Eduard Sola)

Durante o verão europeu, mais precisamente durante o mês de agosto, uma das épocas mais quentes do ano no continente, um espetáculo único, que não acontecerá novamente tão cedo, tem lugar: na noite do dia 18, o cometa Rose atravessa o céu de Barcelona. Por causa disso (ou: no meio disso), mais de 500 histórias de amor florescem na cidade. "Noite de Verão em Barcelona" conta sobre seis delas. O longa deixa, portanto, a ideia de trazer mensagens sobre diversos tipos de relacionamentos, quebrando possíveis preconceitos e paradigmas, mostrando, por fim, que sentimento é mesmo "preto no branco" quando sincero, é simples; é mais paz do que zunido pelas comprovações, ou sequer existe.

Os entrelaces entre as histórias acabam ficando para as lições de base, que aparentam, além de ratificarem o fato de que toda forma de amor é válida, contanto que não contenha mentiras  e isso já é não afetar vidas alheias , também agregarem pontos como o do trecho: "Porque, como não esgoto por ratificar, o amor é feito de cinco pilares principais. A lealdade, o respeito (de cuidar dos limites como se fosse o outro – como gostaria que o outro cuidasse), a amizade (que confidencia e vai além da consideração, incorporando a indispensabilidade de estar disponível/alcançável e à par das miudezas e tsunamis diários), o espelho (de fazer pelo outro como por si – assumir coragens para praticar os feitos que gostaria que o outro fizesse como soma por você) e o verbo, que põe tudo em prática. E lealdade é responder todas as perguntas, mesmo as mais gratuitas. Não há pergunta ruim, e sim resposta medrosa. Quem não esclarece, não é leal. Quem reclama de uma pergunta para esquivar, não é leal. Quem é leal, responde até as indagações mais repetidas. O leal pode até soltar uma reclamação célere e respirar fundo, mas clareia qualquer neblina sem atrasos, mesmo as que parecem nem existir. E enquanto está tirando a dúvida, faz sem braços cruzados, sem birra e com tenacidade. O resto, não depende de saber o que é lealdade, é questão mesmo de não merecer os créditos" (texto de "Não é o que parece").

  • Do Pó da Terra (Lançamento: 13 de outubro / Roteiro por Di Moretti)

Um retrato afetivo e aprofundado sobre a relação entre os artesãos e moradores do Vale do Jequitinhonha e a matéria-prima que utilizam, o barro, substância que vem da terra, que vem do pó, de onde vieram os homens e que dá a chance de transformar miséria em arte. Afinal, tudo é "p-arte", nos mais diversos sentidos.

O documentário aglomera entrelinhas críticas sobre o machismo, em falas que deixam claro o quanto a cultura do estupro em seus diversos níveis ainda permeiam em vestígios fortes a sociedade. Questões fundamentais a serem debatidas, que trazem submissões de seres e faltas graves de respeito, também ficam em entornos. Locais pouco visados no país são outros pontos aprofundados pela trama. Eles acabam por representar, acima de tudo, todas as formas que burlam um maior equilíbrio entre condições de vida na população. Logo, são representantes de quaisquer bairros reconhecidos por toda uma cidade, porém pouco auxiliados. As reflexões ficam, portanto, para cada íntimo repensar o coletivo dentre poesias que criticam os confortos que cada um tem, não apenas como algo a ser melhor valorizado, mas como fatores que devem impulsionar a humildade.

Humildade, no sentido mais puro e básico da palavra, não é apenas não rebaixar outros e não desejar crescer às custas da "diminuição" de alheios. Mas é, principalmente, buscar a evolução de tantos enquanto caça a própria, enxergando o que pode emitir e receber em trocas evolutivas. Eis a base das minúcias propostas pela obra em tantos dos pontos, como ainda nas noções mais diretas de trabalhos coletivos e das importâncias de tais teias e reconhecimentos para os caminhos feitos por cada personagem demonstrado.

Outros filmes prometidos para o mês de outubro são:

Suspense/Drama: Terra Estranha (13 de outubro)  O drama familiar agrega questões sobre preconceitos e julgamentos feitos sem estudos, sem aproximações e com diversos dos quesitos adentrados nas inversões de culpas sociais. Além de machismo, permeiam outras temáticas delicadas e de grande importância para discussões a serem prosseguidas. [Spoiler] O final "aberto" (sem desfecho claro ou total) indignou alguns dos telespectadores, mas pode ser um ponto imensamente positivo e reflexivo. 
Drama: Deixe-me Viver (13 de outubro) – A obra é voltada para a religião do espiritismo, mas aparenta quebrar barreiras e não fixar noções somente para quem beija tais crenças de base. As lições deixam a promessa de fincarem em quesitos da vida em terra e das relações humanas em quaisquer instâncias, acima de tudo.
Comédia dramática: Irmã (06 de outubro) – Fiquei imensamente curiosa para devorar as entrelinhas. O filme deixa juras de abordagens sobre lealdade, autoconhecimento e aceitações respeitosas.
Ação: Assassino a Preço Fixo 2 – A Ressurreição (06 de outubro) – "Afinal, se você está encurralado, você não tentou mudar a sua forma de tentar".
Policial/Histórico/Suspense: Kóblic (13 de outubro) – Trama que aparenta ser de suma importância história e crítica!
Poicial/Suspense: No Fim do Túnel (06 de outubro)  Um longa que promete desmanchar ideias de julgamentos prévios e trabalhar com críticas sociais a partir das mais pessoais.
Comédia: É Fada (Lançamento: 06 de outubro) – Apenas espero que o filme não dissemine os fatores de "padrões sociais" [ainda tão impostos diariamente] como pontos necessários para o sucesso almejado ou para quaisquer formas de autoconhecimento, beleza, autossuficiência e afins, já que no trailer, é o absurdo que aparenta ocorrer.
Comédia dramática: Um Doce Refúgio (06 de outubro)

Atenção! Alguns locais estão indicando o filme "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" como lançamento do mês, porém a previsão de estreia da obra é somente para 19 de janeiro.

Mais um adendo básico que fica é sobre o fato de que um gênero definido para um filme não é embasamento para limitações. Um romance pode ter um enfoque muito maior em autoconhecimento, uma comédia pode ter linhas mais reflexivas que acabem inclinando para o drama e assim por diante. Acima, foram colocados os estilos indicados apenas para uma noção primária que não deve ser confundida com base total.

E então, estava aguardando alguma das obras há muito tempo? Qual das tramas mais chamou a sua atenção? Quais reflexões acrescentaria sobre os pontos já abordados? Não deixe de emitir as suas opiniões e dicas nos comentários!

Vale ratificar que os filmes de toda a postagem não estiveram em ordem de "possíveis favoritos" ou outras formas de organização crescente ou decrescente.